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5.11.04

A Divina Tragédia (canto VIII) – A Mansão de Lord Buttocks

Lord Buttocks era também conhecido como O Autor. Era um escritor tão bom, seu conhecimento da alma humana tão profundo e suas descrições tão vívidas, que os seus personagens realmente criavam vida e saíam por aí. Eles passeavam pela propriedade de Lord Buttocks e jogavam croquet. Alguns até chegavam a se assanhar com a criadagem, mas logo Lord Buttocks, O Autor, ameaçava alterar alguma característica física deles em uma nova edição de seus livros e eles retornavam obedientes ao chá e torradas com geléia de damasco.

Porém, agora, os seus personagens estavam morrendo. Um a um. E também seus investigadores. Ninguém descobrira a razão.

Na entrada da propriedade de Lord Buttocks não havia portões. O caminho até a Mansão era protegido por um asseado jardim em forma de labirinto. Como o de Versailles. Apenas um pouco maior e com plantas carnívoras. Não muitas. O suficiente para desencorajar seus diversos fãs e tias-avós em visitas-surpresa.

Resolvi alugar um taxi-aéreo para passar por cima do labirinto. Taxi-aéreo no Céu são uns anjões com umas fitas de seda resistentes e coloridas que formam uma balança aonde senta o passageiro. Ele me deixaria diretamente no hall de entrada da mansão. O anjo que eu peguei era careca e falava fluentemente o paquistanês e o aramaico. Pena que eu não. Consegui me fazer entender por gestos. É preciso ter muito cuidado. Nosso tradicional gesto de positivo é entendido aqui no Céu como "tem penas de urubu saindo das nádegas peludas da sua irmã caçula". Uma ofensa grave.

Como eu imaginava, a vista aérea revelou que o labirinto não tinha saídas para a parte interna da propriedade. Imagino que aquela velha e pequenina senhora de chapéu florido carregando uma travessa com docinhos ainda perambularia muito tempo por ali. Do alto a propriedade se mostrava ensolarada e magnífica. Daria para assentar por ali umas cinqüenta famílias de sem-terra. No mínimo. O taxi aéreo me deixou ao lado da réplica da Fontana di Trevi, onde se banhava uma réplica da Anita Ekberg, diante da entrada da mansão.

Paguei a curta viagem com sete balas juquinha de morango, uma iguaria que acredito ser muito apreciada por aqui. O anjão careca fez um sinal de positivo para mim e, resmungando, levantou vôo.

– Fola! Não pode entlá!

Fui recebido inamistoamente por Nun Li, mordomo de Lord Buttocks, um mau-humorado chinezinho de 60 centímetros de altura. Não era um chinês baixinho, atarracado, mas uma miniatura perfeitamente proporcional de um chinês típico. A cabeça parecendo um ovinho invertido, chapeuzinho preto, bigodinhos finos, vestes de seda vermelha e andar de gato de porcelana. Tudo em miniatura.

Nun Li e Nun Goj-Tei eram irmãos gêmeos. Ambos nasceram, coincidentemente, na mesma casa, no mesmo dia, na mesma hora, embora de mães diferentes. Nun Li era o mordomo de Lord Buttocks e Nun Goj-Tei o motorista do riquixá de Christie, a gata de estimação de Lord Buttocks.

– Não pode entlá!

O mordomozinho chinês, muito sofisticado, sabia 37 idiomas e dialetos, oito línguas mortas e três agonizantes. E odiava falar português. "Lingua hololosa. Palece um lusso embliagado falado ao contlálio." Assim, fazia questão de trocar sempre que possível o R pelo L. Para ridicularizar o ouvinte. É a tal da sabedoria chinesa, acho.

– Senhor Nun Li, eu venho, com uma puta humildade, oferecer os meus especializados serviços ao seu patrão.

Dei meu cartão ao chinezinho que o olhou como se eu tivesse assoado o nariz nele. No cartão ou no chinês. Tanto faz.

– Michaetch M. Wladisknivlonzky, pediculo?
– Não, não sou pedicuro, sou Nivronsky, detetive particular. Foi um erro de impressão. É difícil achar boas gráficas no Inferno. E quando se encontra, estão sempre sacaneando.
– Infelno, é? Então, seu Nivlonsky, é uma alma etelnamente danada?
– Exatamente. E vim resolver esse pequeno incoveniente dos assassinatos em série.
– Hmmmm…

O pequenino chinezinho levantou uma sobrancelha. Levantou também a extremidade de seu bigode e o dedo mínimo do pé direito. Algumas engrenagens metafóricas mexiam na sua cabecinha de bibelô. Ele sabia que as almas eternamente danadas não correm o risco de renascer. Assim eu não correria o risco de terminar como os outros investigadores desse caso misterioso, reencarnando abruptamente na Terra.

– Pol favol, agualde na ante-sala.

Segui o minúsculo mordomo. A ampla sala era uma réplica do interior do Palácio Ducal de Veneza. Só que feita com bom gosto. Ou seja, completamente diferente.

As paredes e o teto eram totalmente recobertos por pinturas e afrescos que estavam sendo repintados por Frederick Lord Leighton. Nessa versão de outono o pintor estava representando as diversas musas. Do teatro, da música, da pornochanchada, do badmington. A musa Yabusa (a musa dos trocadilhos) cansada de posar como modelo, ressonava sobre um divã turquesa. O Próprio Lord Leighton, aliás, dormia pendurado em um cabide num dos cantos do salão com a palheta ainda pendurada nas mãos.

Acontecia que, curiosamente, todas as musas e todas as mulheres pintadas em qualquer cômodo da casa acabavam sempre se parecendo com a Shirley Maclaine novinha. Uma verdadeira obsessão de Lord Buttocks. Uma paixão que jamais seria correspondida, pois a Shirley Maclaine há muito tempo reencarna sucessivamente no mesmo corpo. Sabe-se, porém, que quando terminar a última reencarnação ela será levada por um disco voador para uma outra galáxia em outra dimensão. É essa dor do amor impossível que faz Lord buttocks escrever. A dor e as ameaças do editor.

Porém eu sentia que devido à série de assassinatos ocorrida naquela casa o ambiente estava pesado. Parece que havia uma tensão no ar. Era possível reparar essa tensão no mármore do chão e também nos móveis de marchetaria tcheca. Os candelabros estavam tensos. A casa estava visivelmente toda tensa. Um cálice de champanhe estalou na cristaleira. Lord Leighton acordou, resmungou algo sobre a escassez do verde cádmio e dormiu novamente. Nun Li retornou ao aposento:

– Lord Buttocks o espela no outlo lecinto.

27.10.04

Divina Tragédia (canto VII) - Paineiras Furta-Cor

Paineiras Furta-Cor é um condomínio fechado localizado na parte mais distante do Sétimo Céu. Passa-se por várias guaritas e cancelas para chegar lá. A entrada de Paineiras Furta-Cor era guardada por sete anjos-samurais vestidos de armaduras vermelho-cinábrio e terra-de-siena, ton sur ton. O comandante, um grande anjo de seis asas chamado Sir Jonathan Caldwell McGarther Al-Daif Lelahel Duboys de Almeida Metatron III, protegia o elegante pórtico em estilo mediterrâneo com sua espada de nove gumes.

Metatron é um Serafim, um super anjão porreta. É um transformer gigante que duas vezes por semana pode alterar sua forma para um tiranossauro alado de titânio que solta labaredas pelos olhos e raios lazer pelo rabo. Muito cool! Mas, naquela hora, estava na forma desse anjo enorme com três pares de asas metálicas, um par para voar e dois para cobrir o corpo. Empunhava uma estranha espada que seria a versão celeste do canivete suíço.

Irado, ao ver chegar um gordinho careca portando chinelos, camisa florida e pochete trotando em um jegue com toda pinta de viado, admoestou-nos:

– Aquele que ousar profanar o santuário da sapiência e beleza terá sua alma espúria exterminada do meio de seu povo. O ímpio que trouxer iniqüidade a este santificado reconditório vestir-se-á de maldições como quem põe sobre si uma mortalha ensangüentada. – o gigante Metatron avançou em nossa direção. – Não temeis, por ventura, a espada de nove gumes de Metatron, ó reles criatura? Que impurezas trazeis em vosso coração, ó alma vil e xexelenta?

Solenemente proferi as santas palavras: "Trouxe a muamba do Orson pra galera! U-hu!"

Os anjos-samurais prostraram-se no chão. Metatron fez uma respeitosa reverência e entrei. Todo o condomínio é circundado por altas muralhas caiadas. Uma alameda de, óbvio, paineiras furta-cor conduz a um jardim e um lago central com uma ruína de um templo à Minerva projetada pelo Le Corbusier. Nenhum transporte motorizado é permitido. Apenas riquixás e cabriolés zanzam pelas aléias floridas.

Encontrei toda a clientela de Orson Welles reunida em um Garden Party Brunch nos ensolarados jardins do Palacete de Marlon Brando. A distribuição dos produtos seria bastante rápida. Todo mundo estava lá. Menos o próprio Brando, que mandou uma falsa índia em seu lugar. Ingrid Bergman com uma pena na cabeça.

Grace Kelly, deitada languidamente com seu maiô branco à beira da piscina, ouvia animada as lorotas dos dois Richards Burtons. O ator contava quem ele havia comido e o explorador de quem ele escapara de ser comido. Dorothy Parker com um chapelão amarelo era assediada pelos dois Lawrences. TE travava um discreto duelo com DH para acender o cigarro na longa piteira também amarela de Dorothy. Oscar Wilde voltava de um alegre passeio pelo pomar com o imperador Adriano. Akira Kurosawa tocava um ukalele para Theda Bara dançar. Um mandarim magrinho estava sentado em posição de lótus no trampolim da piscina. Um lagarto azulado sonolento segurava uma sombrinha rendada sobre sua cabeça imperial. Humphrey Bogart jogava xadrez com Lyn Yutang. Sidarta todo arrogante, achando que era o Tao, carregava no colo sua cadelinha Fifi.

Porém um pequeno alvoroço estremecia os convidados como uma lagartixa caída em um decote. Um escândalo. Boatos recentes na Terra diziam que o filho do Chefe Lá de Cima era, na verdade, casado. Tinha filhos no paralelo e tudo. Mandaram chamar o Leonardo da Vinci, suposto autor da fofoca. Leo chegou naquele troço voador que parece um saca-rolhas feito de papelão que todo mundo sempre tem que dar um empurrão pra funcionar direito e sair correndo quando pousa. Ele afirmou não ter nada a ver com essa história. Não tinha nada de códigos na pintura, não. Nem sabia da vida do Filho da Homem. Ele apenas fizera uma propaganda institucional. Só. Sem subliminares, que custam mais caro. O pessoal estava viajando na maionese e pirando no abacate. Mas, afinal, cada um via o que queria em seus quadros, não é mesmo? Obra aberta e coisa e tal. Ele não era dono dos olhos das pessoas. A não ser de um determinado cadáver, mas esse ele tinha a nota fiscal. Não sei se o papo colou. Mas a discussão parecia que iria longe. Mencken e George Sanders o cutucavam, provocativos. Leonardo ria, afagando a barba, e tergiversava.

Ao lado da piscina anunciei minha chegada e a das infernais especiarias.

– Olhaí, olhaí freguesia, é a muamba do Orson Welles! Venham experimentar essa dilícia!

O grupo em torno de Leonardo da Vinci dispersou e começou a rodear o jegue.

Grace Kelly foi a primeira a se levantar para pegar a sua cocaína para o real narizinho platinado. Levantou o rabo do jegue e procurou sua encomenda. E, em seguida, bateu uma carreira num espelho que lhe estendia Cleópatra. Apesar de achar a cena hilariamente disgusting, os outros logo a seguiram. Cada um dos convivas depois de vencer o nojo pegava dentro do jegue o seu pacote. O jegue gay zurrava de contentamento.

O vibrador com luzes e musiquinha para a Mata Hari. Uma touxinha de ópio e um cachimbo de madrepérola para Lord Byron. Os charutos cubanos para o Churchill. A grande caixa de viagra para o Borges. Absinto 70º para o Fritz Lang. Os pastéis de camarão com catupiri, embora tenham chegado quentinhos, acabaram sendo irremediavelmente esmagados. Ficarei devendo para a simpática czarina Catarina I. Dei para ela o restinho da minha pamonha e ela lambeu os lindos beicinhos.

Depois de compartilhar o novo cachimbo de Lord Byron vários convivas começaram a mostrar outros interesses pela minha montaria. Quando eu já deixava a Garden Party pulavam na piscina, ao som de palmas e gritinhos animados, Nabucodonosor, Marcello Mastroianni e o jegue. Peter Sellers agitava as maracas. A rainha Vitória começava a tirar a roupa.

Já era a hora de fazer minha visitinha à mansão de Lord Buttocks.

23.10.04

Divina Tragedia (canto VI) - Um Sorvete de Ambrosia no Segundo Céu

Como no Inferno, há também muita burocracia no Céu. Porém as filas são muito curtas e o atendimento informatizado. Na minha frente havia apenas uma freirinha sudanesa e o Christopher Reeve. Christopher estava com um problema. Um belo problema. O papel de SuperHomem contou muitos pontos – super-heróis são muito queridos por aqui –, mas a defesa do uso medicinal das células-tronco fez o Christoper aguardar uma apelação nas Cortes Celestiais. O que costuma demorar muito, pois no Céu existem muitos juízes, mas nenhum advogado entra. Teria que passar o caso para a Virgem Maria, a Intercessora. Mas, mesmo rachando os processos com Santo Expedito, ela ainda estava muito atrasada com os pedidos e só agora conseguira se desvencilhar dos recursos do século XVIII. Christopher Reeve sentia vontade de rodar o mundo ao contrário, mas só o que conseguia era, irritado, girar com a cadeira de rodas no mesmo ponto.

Na minha vez, mostrei toda a minha papelada. Passaporte, contrato, caderneta de vacinação. Os documentos do jegue também. Tudo em ordem.

– Trabalho ou passeio?
– Trabalho. Vou investigar um crime insolúvel.
– Puxa, que interessante. Isso deve demorar um bocado.

Talvez demore. Eu não tenho pressa. O anjo da imigração carimbou o passaporte dando estadia de 1/64 de eternidade. Parecia um período razoável. Ninguém da alfândega teve a coragem de revistar o jegue. Um anjão de bigode ruivo fez uma cara de nojo, enquanto nos dava a luz verde. Acho que até sabia que havia contrabando no jegue. Mas não seria ele que iria investigar isso a fundo. Sé é que você me entende.

A mansão de Lord Buttock localizava-se no valorizadíssimo condomínio fechado de Paineiras Furta-Cor, no Sétimo Céu. Seria uma longa subida. Elevador panorâmico ou escada rolante? Optei pela larga escada rolante que percorre em espiral todos os anéis do Paraíso. É sempre um passeio agradabilíssimo. A escadaria branca é toda ladeada com figuras de mármore alternando estátuas figurativas com esculturas abstratas. Um Hércules de Rodin, uma mão-pássaro de Brancusi, uma Ava Gardner de Bernini e uma estátua do Arcanjo Miguel de Michelângelo tão perfeita que realmente fala. Mesmo sem marteladas. Ela diz: "Favor não pisar na faixa amarela. Obrigado."

Demos uma paradinha no Segundo Céu. Lá, perto da entrada, ao lado da Apple Store, há a Gelateria do Olivier.
Sir Lawrence, no pós-morte, especializou-se na fina alquimia dos sorvetes de massa com sua dedicação shakespeariana. Fui servido pelo Jack Lemmon. A grande ambição de Lemmon sempre foi ser sorveteiro. Ele dizia que ficava bem com o bonezinho branco. E era verdade. Era o próprio sorveteiro. Pedi um Sweet Cordelia, que é sorvete de Ambrosia com um nadica de avelãs, a especialidade da Gelateria do Olivier. Caríssimo. Duas bolas e a cobertura de chocolate com Hidromel custam o mesmo que um banquete de bisão com abacaxis selvagens para quinze pessoas no Inferno. Mas só essa paradinha já valeu toda a viagem ao Paraíso.

Sorvi o sorvete sentado com o jegue em um gramado ensolarado onde brincavam as crianças felizes e saltitantes até que chegasse o caminhão. De quatro em quatro horas vem um caminhão da Administração Celeste e troca os moleques sujos por uns novos, de banho tomado. Se for o caso, tiram os carrapatos, dão cafeína e aplicam infravermelho nas bochechas das crianças para ficarem bem saltitantes e rosadinhas.

Sorvete tomado, voltamos, eu e o jegue, para a ascendente escada-rolante em espiral. O sorvete estava ótimo, mas eu ainda estava com fome. E, a despeito das câmeras de segurança, que estão em toda parte por aqui, sentei nos degraus e comi uma pamonha trazida dos Infernos. Uma Ambrosia perfeita, só no Céu e na Gelateria do Olivier. Mas pamonha, torresmo e acarajé, só confie nos dos Infernos mesmo.

O Terceiro Céu é bem legal também. A parte sudeste dele é o Sítio do Pica-pau Amarelo. A noroeste é a Terra do Nunca. Não. Não aquela, seu tonto, a original. Aquela que você pensou que fica no Sexto Círculo do Inferno é só para crianças muito, muito, mas muito mal-comportadas mesmo. Os outros dois quartos do Terceiro Céu são administrados pelo Lewis Carroll. Da outra vez que estive aqui, o danado do Lewis tinha feito a sua própria versão da Fantástica Fábrica de Chocolate. É sempre um passeio divertidíssimo a Carrolland. Mas não hoje. Primeiro os negócios.

O Quarto Céu é todo um MMORPG do Senhor dos Anéis. Você pode escolher ser um hobbit, um trent ou até cavaleiro negro. Joguei como Sauron uma vez. Em meia hora, matei o baixinho, peguei o anel, incendiei Rivendell, calcinei toda a Terra-Média e tiveram que resetar o jogo. Achei meio sem graça. É bem caro, mas é um dos poucos Círculos Celestes em que o homossexualismo é tolerado.

No Quinto Céu, as coisas começam a ficar mais sérias. Ele é uma titânica catedral circular. Vitrais quilométricos feitos de pedras preciosas. É um bom lugar para encher as pistolas d'água nas piscininhas de água benta. Os diabinhos do inferno odeiam! A enorme abóboda, em que passam de hora em hora os melhores momentos da Criação, é sustentada por enormes colunas de marfim maciço finamente entalhadas com a vida dos santos e apóstolos. É impossível você olhar para uma obra de arte dessas e não meditar profundamente. Por exemplo: qual seria o tamanho do bendito elefante que produziu esse marfim enorme? E a música. Ah, a música! Há um coro de anjos de sete mil vozes na quinta a noite e um querubim que toca Ave Maria no pente na sexta. No domingo J.S. Bach está sempre tocando seu órgão. Por isso não gosto de ficar muito perto do Sebá. Especialmente de braguilha aberta. É como diz Santa Cynthia: "se J.S. vier te propondo uma toccata, apele pra fuga. De preferência, em ré maior, contra a parede mais próxima..."

O Sexto Céu estava fechado. Há muito tempo. Está em reforma desde o século VIII. Ninguém tem muita certeza do que aconteceu aqui nem sabe no que essa área vai se transformar. Uns acham que pode virar um convento de luxo, outros um cassino à leite de pato, outros ainda dizem que ali se confecciona, em joint venture, a Besta do Apocalipse. Talvez todos tenham razão. Não sei.

Girando, girando, chegamos à entrada do Sétimo Céu. Há mais dois andares para cima. Mas minha parada é aqui.

21.10.04

Divina Tragédia (canto V) - A Grande Pirâmide Celeste

Minhas pupilas começaram a se adaptar à luminosidade celeste. É muito claro por aqui. Por isso vários anjos usam óculos escuros. Principalmente os que acordam de ressaca.

A entrada para os Céus é uma enorme pirâmide. Toda dourada, com um olho luminoso no topo, que brilha como um farol. E enxerga tudo. A pirâmide fica no meio de um oásis, que fica no meio de um deserto feito de uma espécie de luz sólida e granulada. É meio esquisito e não adianta explicar essa luz sólida e granulada. Se vocês forem bonzinhos e comerem bastante fibras, um dia vocês saberão como é. Se não, paciência, vão ter que fingir que entendem o que eu estou falando.

Havia uma fileira de pessoas esperando para entrar na Pirâmide. Muito estranha essa fila. Era uma fila de mutilados. Manetas, pernetas, gente sem cabeça. Corpos carbonizados carregavam carrinhos-de-mão repletos de pedaços de gente. Até que chegou um sujeito num tapete voador e pairou sobre a fila. Logo atrás chegou uma grande montanha. Era Maomé. O Profeta, com uma face sem rosto e o corpo involto por labaredas laranjas, vinha pessoalmente cumprimentar e abraçar os muçulmanos mortos nas recentes Jihads. Só então notei que entrara na fila do Paraíso Muçulmano. Fila errada. Não que eu me incomodasse com uma cota de setenta virgens ou com um orgasmo que dure seiscentos anos. Mas não hoje. Primeiro os negócios.

Abandonei a fila islâmica ainda acompanhando as manobras aéreas do tapete voador de Maomé e a bizarra montanha que sempre seguia seus movimentos. A minha entrada correta era pelo lado ocidental da Pirâmide onde havia muito pouca gente. No Céu, poucos são os escolhidos. Aqueles de muito bom gosto. As pessoas boas de coração. Aqueles que tentaram amar seu próximo como a si mesmos. Ou seja, muito pouca gente mesmo. Quase ninguém.

A recepção do Céu é algo entre um gigantesco Hotel de Luxo, um Banco e um Shopping Center em sociedade do Bill Gates, Trump, Onassis e Rockfeller. Um hall central amplo com pé direito estratosférico. No centro há uma árvore frutífera delgada que atravessa todos os andares até a cobertura onde ficam os Escritórios Centrais. Longas colunas de vidro contêm aquários com peixes tropicais, corais multicolores e demais bichos exóticos que nadam para cima e para baixo ou grudam-se no vidro. Um deles tem a Jaqueline Bisset de camiseta e snorkel. Além da transparente cúpula central, a iluminação natural é provida por um sistema de clarabóias basculantes fotosensíveis nas paredes da Pirâmide. O chão é de mármore com filigranas douradas. Enfim, é uma verdadeira obra faraônica.

Na recepção do Céu há vários guichês em diversos idiomas. Filas bem curtas. Preparei meus papéis de entrada. Puxei meu jegue. Por alguma antiga razão os jegues são muito queridos no Paraíso. Dois querubins japoneses se encantaram com ele. E ficaram rodopiando em volta do jegue, dando umas risadinhas de camundongo. É bom ter a presença de anjos e arcanjos por aqui. Eu tinha um diabinho que se instalara na minha nuca há meses e ficava espetando meu nervo. Foi só a aura de um anjo de cabelo rastafari entrar em contato com o diabinho, que ele caiu durinho no chão, estrebuchando. Praguinha.

Na recepção, sentado em um sofá branco, Frank Zappa estava visivelmente desapontado por estar no Paraíso. Sentia-se completamente abandonado. Todos os seus conhecidos estavam no Inferno. E, como em sua ficha não havia nada sério que o desabonasse, estavam tentando realocá-lo no Céu para a ala dos Profetas Modernos. Para sua imensa frustração. Impaciente, levantava-se do sofá e perguntava a uma simpática e ligeiramente estrábica anjinha da recepção, se poderia realocá-lo com alguma companhia interessante:

– Stravinsky? Igor Stravinsky?
– Sinto muito, senhor. – Consultava o terminal – Está em turnê no Terceiro Círculo do Inferno com o Eric Satie.
Zappa voltava ao sofá. Tragava a fumaça de uma cigarrilha. E voltava à bancada da anjinha risonha.
– E o Lennon?
– Sinto muito, senhor. – fofocou sussurrando a vesguinha – Parece que teve uma briga de egos com o filho do Patrão. Uma discussão sobre qual era mais famoso. Ele é um bom moço, mas agora o Filho do Homem deixou ele de castigo uns tempos.
– Mas pelo menos o George Harrison deve estar por aí…
– Lamento, houve um problema com Mr. Harrison. Era para ter reencarnado como um Lama Tibetano e por um erro de digitação voltou à Terra como um Lhama Peruano…
– E nem o Elvis?
– O que consta aqui no terminal é que ele não desencarnou. Continua vivendo tranquilo em sua casa.
– É? Em Graceland?
– Não, em Roswell. Mas temos o Herr Haendel disponível. Ele faz muito sucesso aqui no Céu. E tem uma vaga no quarto dele. Quem sabe o senhor…
Frank Zappa, voltou a deitar no sofá e apertava com os dedos polegar e indicador o espaço entre a sobrancelhas.

Mas atrás do balcão, um alvoroço. Um arcanjo tomava uma grande bronca. Parece que um certo Carol Wojtyla, do Vaticano, já perdera a nona chamada para subir ao Céu. São Pedro estava irritadíssimo e gritava desafinando que o Chefe falou que se ele não vier na próxima chamada não precisa nem vir mais.

Os querubins davam ainda mais risadinhas de camundongo com o xilique de São Pedro. Esses putos.

14.10.04

Divina Tragédia (canto IV) - O Purgatório

Na saída dos Portões Negros resolvi fazer uma última sacanagem. Prendi com chiclete as duas campainhas, a do choro e a do ranger de dentes. O Cerberinho começou a latir aguda e alucinadamente com suas três cabecinhas idiotas. Esses trotes contam pontos por aqui. Cento e cinquenta mil pontos podem ser trocados por um CD de Natal da Simone.

Reparei que as velhas placas de propaganda DEIXAI TODAS AS ESPERANÇAS VÓS QUE ENTRASTES estavam sendo trocadas por umas novas. INFERWORLD – um Mundo de Perversões. Belo marketing. No fundo O Inferno não deixa de ser uma espécie de parque temático. É um Wet & Wild com piscinas de amônia e giletes no esgorregador. Um Very Hot & Wildest, no caso.

O Jânio Quadros inaugurou recentemente uma ponte para o Inferno sobre o Rio Aqueronte. Um obra supermoderna com 16 pistas. Todas só de ida.

Eu decidi atravessar o Aqueronte, o Rio da Morte na balsa do Velho Barqueiro. Mudanças também atingiram o velho Caronte. Agora que trabalhava na travessia era o jovem Caronte Jr. Contou-me que pensava em instalar um teleférico ligando as duas margens. Ou um sistema de catapultas. Ainda estava pensando na melhor possibilidade.
Caronte Jr. estava fazendo uma promoção legal. Agora quem volta para o lado de lá GANHA uma moedinha! A minha foi um tetradracma grego. Sou um sortudo dos Infernos.

Desembarcamos no Purgatório. Estava aliviado por finalmente respirar um ar sem enxofre ou nicotina e parar de suar como empreiteiro numa CPI.

É desse jeito o Purgatório. Não fede nem cheira. Não é úmido nem seco. Não faz frio, não faz calor. O tempo está sempre nublado. Não acontece muita coisa. Digamos assim: poderia ser melhor, poderia ser pior.

O Purgatório é tão excitante como um documentário sobre as novas técnicas de operação de varizes ou sobre as variedades de pinheiros no hemisfério norte. Dá até para ver se não estiver passando mais nada em outro canal. E não está passando mais nada em outro canal.
É, em realidade, um enorme e amplo depósito. Como ninguém mais reza pelas almas do Purgatório, elas aqui vão se acumulando.

Diferentemente do Céu e do Inferno que foram concebido em círculos, o Purgatório está disposto em losangos, trapézios, elipses e eneágonos. É uma geografia peculiar. O caminho até o Paraíso é longo, reto e bem sinalizado. Atravessa todos os níveis do Purgatório até desembocar nos Portal Luminoso. A estrada tranqüila passa por diversos repositórios de almas muito interessantes.

A Cordilheira Nevada dos Budistas. A Garganta dos Luteranos. O Terraço Britânico, onde se hospedam os fãs incondicionais dos autores ingleses do séc. XIX. O Pico dos Violinistas. O famoso Estreito dos Antigos Gregos. A escondida Baía dos Tímidos.

No trecho em que a estrada margeia o litoral cruzei com o Fernando Sabino olhando um mapinha e procurando a Praia dos Cronistas Mineiros e Capixabas. Acenei, mas ele não me reconheceu.

Depois passamos pela Península dos Psdbistas. Estão todos lá. Menos o Sérgio Motta, que hoje dirige uma promissora casa de bingo no Sexto Círculo do Inferno, que é, na verdade, apenas uma fachada para uma rede de fast-food macrobiótica tailandesa.

A Ilha dos Autores de História em Quadrinhos. É um estágio temporário. Depois de cumprir alguma penitência aqui o quadrinista é levado ao Paraíso ou para o Inferno. Winsor McCay, por exemplo, recebeu o cargo de designer do Oitavo Círculo Celeste. Walt Disney está no Sexto Círculo do Inferno, lavando escarradeiras e latrinas no Bairro dos Hunos.

O Penhasco dos Malandrinhos, aqueles que levaram uma vida pecaminosa e só se arrependeram no último instante.

A Selva dos Ecologistas. Aqui eles aprendem o que é viver realmente em harmonia com a natureza. Sem livros e sem fósforos.

A Planície Amarela. Lotada de chineses, alguns bilhões. Dispostos em camadas.

O Vale dos Esquecidos. Aqui são depositados aqueles que morreram fazendo diálise; aqueles que morreram em shoppinng centers durante a semana do Natal; aqueles que morreram de tédio em asilos públicos ou em festas de aniversário de crianças; e aqueles que nasceram, viveram e morreram na Islândia.

Tenho que admitir que o pior momento da travessia do Purgatório foi passar pelas Colinas dos Embriões no Limbo. Era preciso extremo cuidado, eu e meu jegue, ao pisar no chão nessa região para não esmagar a alma dos pequeninos seres humanos de apenas uma, duas semanas de vida que brotavam a todo instante por aqui e acolá.

Eu escutava suspiros doloridos. Era Sócrates, que brigara novamente com a comunidade dos Gregos. Só que dessa vez não teve a opção da cicuta. Já estava ficando viciado naquele troço. Só lhe restou o exílio. Desanimado, sentado no alto da colina, tentava estabelecer algum diálogo com os milhões de fetos e embriões do Purgatório. E suspirava.

Petland Highs, o planalto dos animais de estimação muito queridos mas não batizados. Muitos cachorrinhos lindos e gatinhos fofos. Um ou outro passarinho. Alguns cavalos trotavam ao longe. Talvez tenha avistado um golfinho. Não tenho certeza.

No mais, uma travessia sem incidentes. Fomos seguidos à distância por um chimpanzé de quimono púrpura no final da trilha e uma tribo de pigmeus curiosos, logo no começo, que devem ter sentido o cheiro dos pastéis de camarão. Uma jornada tranquila pelo Purgatório. Aliás, como sempre.

Um clarão branco surgia no horizonte. Segui essa luminosidade intensa e quase cegante.

Por fim, entrei na Luz.

13.10.04

Divina Tragédia (canto III) - Saída pela Direita

O portão interno do Quinto Círculo dos Infernos ostentava em bronze os dizeres SIC TRANSIT GLORIA MUNDI.
Um deputado local conseguiu aprovar certa lei e os dizeres foram traduzidos para GLÓRIA, TODO MUNDO PÁRA NO TRÂNSITO.

O jegue foi uma boa escolha. É um dos meios de transporte mais rápidos do Inferno. Os jegues e as bicicletas ergométricas.

O trânsito no Quinto Círculo atingiu praticamente a perfeição da imobilidade. É a configuração automobilística precisa do nó górdio com a banda de Moebius. Não há calçadas nem transporte público. Os carros movem-se alguns centímetros por semana no asfalto mole. Por rodízio. No centro deste magnífico novelo viário foi erigida uma gigantesca estátua de Henry Ford, patrono inconteste do Quinto Círculo, feita de ferragens retorcidas e borracha vulcanizada. Das enormes narinas do colosso metálico sai uma coluna de fumaça preta de motores fundindo, contrastando com o vermelho quente do céu infernal.

Outra grande atração turística do Quinto Círculo é a Roda da Má Fortuna. São caminhões, ônibus, táxis e motoboys que ficam girando eternamente em uma praça rotatória sem saída insultando uns aos outros. No centro desta praça estão presos aqueles motoristas que andam sempre muito devagar, conversam com o passageiro ao lado, não dão pisca mas atravessam o farol assim que ele fica vermelho. Estão todos amarrados dentro de um Ford Ka escutando eternamente uma buzina de FNM de 120 decibéis.

Contrariando muitas expectativas, o Inferno é o verdadeiro paraíso liberal. Enquanto no Céu a maioria dos serviços provêm de um rígido monopólio estatal, aqui grassa o liberalismo econômico radical. A canalização social dos impulsos egoístas de seus cidadãos promoveu ao Inferno enormes progressos. Veja o exemplo das Grelhas de Sete Andares.

Antes havia filas enormes para as Grelhas que tostavam no máximo oito pecadores a cada vez em um processo manual e arcaico. Porém, o desejo dos condenados da fila de ver o camarada da frente queimar mais rápido combinado com o espírito empreendedor dos Demônios Menores e a livre concorrência entre as diversas Grelhas fizeram surgir aparelhos muito mais eficientes. Além das Grelhas de Sete Andares hoje temos também o Giro-Matic 2005, que permite amarrar os eternamente danados em ambos os lados da grelha, duplicando assim a capacidade que já está 148 churrascos de almas por hora/grelha.

No entanto o keynesianismo não chegou ao Céu. John Maynard Keynes muito menos. Mês passado foi promovido a Supervisor-Geral-Sênior do Oitavo Círculo do Inferno. Dizem que a festa de posse foi particularmente tediosa.

Continuei minha lenta escalada até os Portões Negros do Inferno. A privatização das rodovias infernais gerou uma profusão de pedágios. Um a cada 200 metros de rodovia, aproximadamente. Felizmente jegue e militar só pagam meia. Aposentado paga o triplo, pra deixar de ser besta. Fica isento da tarifa se você comprovar estar levando contrabando, que era o meu caso.

Alguns quilômetros antes dos Portais encontrei um narigudo de touca vermelha e vestidão. Dizia estar procurando uma vagabunda, uma tal de Beatriz. Então o rapaz estava no lugar certo. Aqui não falta mulher. As mais bonitas vão para o Céu integrar o mostruário do Criador (com o perdão do meu francês), porém as mais depravadas vêm sempre para cá.

O narigudo começou a explicar que desgarrara-se do seu guia e estava perdido. Pela descrição percebi que ele estava no lugar completamente errado e que o que ele estava procurando mesmo era o Hades e não o Inferno. É muito comum esse tipo de confusão por aqui. O pessoal de fora acha que é tudo a mesma coisa. Não é.

– Ixi! Você pegou o caminho errado, camarada. Você faz assim: volta por essa estrada amarelo-enxofre, passa a Caverna dos Silêncio Eterno dos Astecas e segue em frente toda vida, toda a vida, toda a vida, vai passar o Valhalla também, mas não entra lá não que o pessoal é meio invocado, vai reto e na entrada seguinte você vira à esquerda e desce a ribanceira. Entendeu? Ali é o Hades. Não tem como errar.

O narigudo de touca vermelha agradeceu e eu retribuí. – Vá com os diabos! – acenei amistosamente. O augúrio se cumpriu e rapidamente um grupinho de demônios verdes agarrou-lhe os pés e arrastou o infeliz pela estrada amarelo-enxofre.

Perto dos Portões Negros do Inferno da entrada comecei a escutar muitos e altos palavrões em francês.

Jacques Derrida discutia com um dos Demônios Burocratas e argumentava que tudo era um equívoco. Que o Inferno não existia na realidade, era apenas um constructo lingüístico baseado no arcabouço proto-medieval da mitologia greco-cristã arraigado no imaginário da civilização ocidental. Disse isso em francês, que era mais chic.

O Demônio Burocrata pediu com muita gentileza que o filósofo francês fosse desconstruir o clitóris de sua mãezinha e que se juntasse ao outro grupo recém-chegado de judeus ortodoxos que aparentavam estar muito surpresos. Muito ortodoxamente surpresos.

Na Alfândega, o procedimento de praxe. Entreguei o contrato Golden-Master-Plus-Hot-Hot-Hot com a cláusula de férias, o passaporte, o IPVA do jegue e o exame de urina. O diabinho encarregado conferiu estar tudo nos conformes e pediu a propina. Entreguei-lhe meu relógio dourado. Procedimento de praxe. Já nem me importo.

No inferno os relógios marcam somente uma única hora. E essa hora é "Tarde Demais".

O próximo passo foi passar pela Segurança e o temível cão Cérbero.

Temível, Hediondo, Apavorante são adjetivos muito usados para o cão Cérbero. Talvez sejam descrições um pouco otimistas. A propaganda do Inferno é de alta qualidade, já que pra cá vem o contingente total das agências de propaganda da Terra. Assim, os publicitários podem ter exagerado um pouquinho nas características do Guardião dos Infernos. Cérbero, na realidade, é um cachorrinho pequenino magrinho de três cabeças. Uma de chiuaua, outra de pequinês, outra de poodle-toy.

Pode não ser o cão mais assustador do Mundo. Mas com certeza é o mais mala.

Deixei o pentelho do Cérbero latindo para o Virgílio, que é um guia, velho conhecido nosso da InferTur. Supersticioso, está sempre com o raminho de arruda atrás da orelha. Ao passar pelos Portões Negros entalhados pelo Rodin e Basquiat gritei:

– Virgilioooooo! A Eneida é uma merdaaaaaaaaa!

Virgílio deu um bico no Cérbero e de longe me mostrou o dedo.

– Vai se foder, Nivronsky!!

Adoro deixar o velhinho puto. Grande figura esse Virgílio!

12.10.04

Divina Tragédia (canto II) - T de Traficante

Jorginho Guinle trouxe o meu jegue.

– E aí, ó Terror de Roliúde? Conta mais.
– Sei de muito pouco. Só sei que já faz alguns meses que essas mortes vêm ocorrendo no Paraíso e que continuam sem solução. Desta vez não foi a Greta Garbo, eu garanto. Eu estava com ela, ensinando o velho baião-de-dois, durante três dos assassinatos.
– Você jura?

Jorginho segurou o pentagrama dourado que trazia pendurado no pescoço e apontou para baixo.
– Por tudo que é mais sagrado.

La Garbo já havia matado alguns criados com um grande vaso de porcelana durante uma crise histérica. Certa manhã, pareceu-lhe ver no espelho o surgimento de algumas rugas. Foi apenas um alarme falso. Havia um alfinete embaixo de seus sete colchões de pena de ganso-real e seu rosto acordara levemente marcado. A morte dos criados relapsos que esqueceram o alfinete foi considerada uma punição bastante razoável e o caso nunca veio à tona.

– Jorge, tome conta dos negócios enquanto eu não voltar.
Jorginho Guinle não estava mais lá. Já partira para a sua visitinha diária a Mae West.

Meu traficante oficial era Orson Welles. Ele tinha dupla cidadania e trânsito livre entre as esferas do Além. As Forças nunca souberam exatamente o que fazer com ele. Assim, Orson fazia espetáculos de mágica no Paraíso e traficava no Inferno. Ou melhor, traficava do Inferno. Todas essas coisas que estão em falta no Paraíso, mas com muita procura por lá. Caravaggios falsos, DVDs piratas, vibradores coloridos e todos os tipos de drogas. Mescalina, crack, ópio, viagra e pastéis de camarão, principalmente.

No Inferno, Orson passava os dias fumando charutos e bebendo tequila em um boteco inóspito encravado entre a vila dos dos dançarinos de flamenco e o bairro dos malufistas. Instalava-se sempre em uma enorme cadeira de vime branco virada para um poço de lava e enxofre onde se debatiam advogados e produtores de Hollywood, para evidente satisfação do velho Orson. Duas mulatas pubescentes brincavam em seu colo e uma núbia lhe soprava gentilmente o suor da nuca.

Assim que Orson me viu chegar escutei sua voz de vulcão:
– Ora, ora, ora, se não é Michaetch Mahukutaefail Wladisknivronzky. O que o traz aqui, Nivronsky?
– Meu jegue. Escute, Orson, estou pensando em tirar minhas férias acumuladas no Paraíso. O que você sabe dos assassinatos que estão ocorrendo por lá?

Ele ajeitou seu corpo imenso na cadeira de palha. Esse processo demorou pelo menos uns seis minutos. No Inferno, Orson tinha a aparência balofa, imberbe e suarenta de A Marca da Maldade, enquanto no Céu, personificava o jovem galã de Cidadão Kane. Eu preferia a versão Orson de barba comprida e cinzenta. Mas no Inferno barbas longas são evitadas. Perigosamente inflamáveis. Bebeu um gole de tequila. Deu uma mordida no sanduíche de pimenta, picles e carne-de-sol. E eu ali, esperando.

– Por que você quer saber?
– Porque estou comendo o pão que o diabo amassou e no Paraíso eles costumam pagar bem por essas investigações.

É verdade. Aqui só me pedem flagrantes de adultério. Maridos querendo fotos da esposa trepando com outros. Não é à toa que os chifres são comuns por aqui. Quando a investigação aponta que elas não têm amantes, mando o Jorginho fazer o serviço e tiro eu mesmo as fotos. O casal fica sempre muito feliz, mas não paga bem. Só ganho alguns cobres quando publico as fotos nas revistas de maior circulação nos Infernos que são a Private Especial de Carnaval e O Acendedor da Seicho-no-ie Especial de Carnaval. O carnaval aqui, como se sabe, dura o ano inteiro, mas só tem cerveja quente e choca. A música é feita só de refrões de axé music emendados uns nos outros, cantados pelo Carlos Imperial se alternando nos vocais com um demônio assírio com cabeça de cabra e voz gosmentamente bêbada.

Orson fez várias caretas enquanto se ajeitava novamente na cadeira. Parecia uma Moby Dick moribunda tentando sair de uma cesta de vime num mercado na periferia de Bangcoc.

– Pois bem, eu direi o que eu sei. Mas você, Nivronsky, fará um serviço de transporte para mim, ok?
– Sem problemas. Meu jegue será sua mula.

Orson Welles explicou que todos os crimes tinham acontecido na elegante mansão de Lord Buttock. Todos aqueles que investigaram o caso acabaram tendo uma morte misteriosa. O último foi Sir Arthur Conan Doyle. Com medo de encarnarem novamente na Terra, os detetives locais foram todos abandonando o caso e, assim, ele continuava insolúvel. Mas não para uma alma naturalmente investigadora e eternamente danada como a minha, frisou meu amigo Orson.

Guardei dentro do jegue as encomendas que Orson enviava moradores do Paraíso. Felizmente meu jegue era gay e não se incomodou.

– E, Nivronsky… – rosnou Orson com malícia.
– Sim?
– … não vá perder a hora. – Orson me estendeu sacanamente o meu próprio relógio que ele havia empalmado. Ele sabia que seria importante.

Entardecia. Piquei a mula rumo aos Portões Negros do Inferno.

9.10.04

Não basta ser arquiinimigo - tem que participar!

O texto dos Quintos dos Infernos aí em baixo já tem algum tempinho e foi inspirado NOS LIVROS de Mestre Alexandre. Eu os recomendo vivamente. São deliciosos livros-pavê, daqueles de se comer às colheradas diretamente na forma e já com remorsos de devolver à geladeira.

Há ainda pelo menos mais duas partes do Quinto dos Infernos que estão na minha cabeça. Estou esperando que meu Plano de Saúde confirme a viabilidade da cirurgia craniana para a extração dos referidos textos.

Bor enquando esdou gribado. Esberem um bouquinho.

7.10.04

Divina Tragédia (canto I) - O Quinto dos Infernos

Meu nome é Nivronzky. Na verdade é Michaetch Mahukutaefail Wladisknivronzky dos Santos. Mas as pessoas me chamam de Nivronzky. Chamam-me de outras coisas também. Mas eu não respondo. Sou detetive particular. E moro no Inferno.

Não. Não é uma forma de expressão. Moro realmente no Inferno, junto com outras almas penadas. No Quinto Círculo, mais precisamente. Este Quinto Círculo é terrível: igualzinho a São Paulo, só que sem os cinemas e administrado permanentemente pelo Pitta. O Sexto Círculo é pior: idêntico a Mogi das Cruzes. O Sétimo, Nova Déli. O Oitavo é uma Brasília com semáforos. O Nono nem queira saber. Em todos faz muito calor. Muito calor mesmo.

Derramava minha transpiração num copo quando Jorginho Guinle, meu novíssimo secretário, entrou em meu escritório. Veio entregar a correspondência. Sim, aqui no Inferno os Correios também existem mas entregam somente malas diretas e contas vencidas e com multas. Os Correios foram privatizados no Inferno, assim como todos os demais serviços públicos. O serviço piorou bastante mas agora eles nos cobram uma tarifa extra pelo aumento da ineficiência.

– Sr Nivronzky, há um crime a ser investigado no Paraíso. - disse Jorge Guinle.
Ele fazia visitas freqüentes ao Paraíso pra comer a Greta Garbo. – Assassinatos em série - completou.
– Sim? E eles precisam da ajuda de uma cabeça brilhante como a minha? - Perguntei enquanto enxugava o suor do cocuruto.
– Não. Mas achei que gostaria de saber.

Tentei me informar sobre esses assassinatos nos jornais e na TV. Mas os únicos jornais do Inferno são edições atrasadas d'O Rascunho e cadernos de classificados de imóveis. Na TV com chiado há apenas os eternos programas de auditório em todos os canais. E propaganda eleitoral.

No Inferno os celulares não falam, só tocam a musiquinha irritante. Muito alto e o tempo todo. Quando você atende ele desliga. A telefonia fixa no inferno consiste em apenas e tão somente dois orelhões. Desta forma os habitantes, depois de enfrentar filas de vários quilômetros para telefonar, devem ainda torcer para que a pessoa com que ela deseja falar tenha chegado ao outro orelhão no mesmo momento. Outro meio popular de comunicação é a Infernet, versão infernal da Internet. Porém todos os emails são spams e contém vírus perigosos que podem transformar seu computador numa gosma quente e pegajosa em segundos. Isso explica porque a única forma de comunicação utilizada com êxito no Inferno é o grito.

Eu tenho licença para sair do Inferno de vez em quando. Fiz questão de colocar no meu contrato. Por isso recomendo sempre negociar a danação eterna de sua alma enquanto você ainda está vivo e não deixar para prestar atenção nesse detalhe quando for tarde demais. O meu contrato é o Golden-Master-Plus-Hot-Hot-Hot com Lesbian-chics. Foi uma boa escolha.

Resolvi então gastar minha folga secular prevista em contrato. Para ir ao Paraíso são necessárias dezessete conduções. Todas lotadas. O trânsito estava infernal, como é de praxe no Quinto Círculo.

Decidi ir de Jegue. Mas antes eu precisava passar no meu traficante.