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3.12.09

Ética em três tempos

(ao estilo… do Almirante )

I

— Bom dia.
— Bom dia, meu senhor, em que posso ajudá-lo?
— Eu preciso de uma ética.
— Ética… ética… ética… Acho que já tivemos ética por aqui. Deixa eu ver. Talvez lá no fundo tenhamos alguma ética.
— Tenho procurado em todo lugar. Está muito difícil de achar alguma ética.
— Pois é. É que tem tido muito pouca procura, sabe? No Brasil a ética está em falta há muito tempo. Não tem demanda.
— Até tenho visto alguma estética. Mas ética, mesmo, não se encontra em lugar nenhum.
— Olhe, senhor, temos esta ética aqui. Não é nova, pertenceu a um tal de Nicômaco, mas está funcionando perfeitamente.
— Hmm. Ok. Está um pouco gasta. Mas como não encontro em outro lugar, vou levar essa mesmo. Pode embrulhar.
— Pois não. Vai pagar a ética no cheque ou no cartão?
— Dinheiro.
— Ah, perfeitamente. O senhor vai querer com nota ou sem nota?


II

— Boa tarde.
— Boa tarde, meu senhor, em que posso ajudá-lo?
— Essa ética que o senhor me vendeu: não tá funcionando!
— Estava ótima antes de sair da loja. O senhor deve ter rompido a ética.
— Eu não rompi nada. Onde já se viu? Ela já veio assim.
— Então o senhor abusou da ética.
— Eu não abusei da ética coisa nenhuma, meu senhor!
— Ah, mas as pessoas abusam. Tem gente que vai esticando assim, tá vendo?, tentando ampliar o limite da ética e ela não aguenta. Acaba arrebentando.
— Opa! Peraí. Agora que estou vendo.
— O quê?
— Isso aqui não é ética, meu caro. É um moralismo. E pior! Moralismo falsificado, paraguaio.
— Foi o que o senhor pediu!
— De jeito nenhum! Eu peço ética e o senhor me vem com um falso moralismo! Assim não é possível! Eu exijo uma nova ética.
— Sinto muito, não tem mais.
— Acabou a ética?
— Acabou.
— Preceitos morais?
— Nenhum.
— Princípios o senhor há de ter.
— Também não temos princípios, senhor.
— E o que o senhor tem, então?
— Temos etiqueta.
— Etiqueta?
— Temos etiqueta, boas maneiras e decoro.
— Decoro?
— Sim. Temos um pouquinho de decoro, se o senhor quiser.
— Ah, sei lá! Então me dá um decoro. Já que não há mais ética, que pelo menos haja um mínimo de decoro.
— Hmm. Acho que também não vai dar.
— Como assim, não vai dar?
— Parece que quebraram o decoro.


III

— Pssssiu!
— Sim. O que é?
— Eu ouvi a conversa do senhor com o vendedor.
— E daí?
— Então, eu posso arranjar uma ética para o senhor. Coisa fina. De primeira linha.
— Mas é boa mesmo, essa ética?
— É ótima. É de um senador. Nunca foi usada. Tá zero quilômetro.
— Opa!
— Pois é. O senador só usava a ética nos fins de semana pra ir na missa e voltar. Mas hoje nem isso, fica lá guardada na garagem. Se quiser, eu posso dar uma palavrinha com o senador. De repente ele libera essa ética, tá entendendo?
— Ah, será que você conseguiria? Estou precisando tanto dessa ética.
— Mas então... Pra falar com esse senador… vai ter que ter um adiantamentozinho pro meu lado, que essa ética é coisa especial.
— Sem problema. Aqui, pronto. Tome mais algum. Compre um panetone pros seus filhos.
— Ah! O senhor não vai se arrepender. É uma ética espetacular. O senhor vai adorar. Ela fala muito bem, é bem articulada. Fez até faculdade de comunicação social.
— Ah, é uma ética jornalística?
— Isso!
— Aqui no Brasil?
— Exatamente.
— Então deixa pra lá.

27.10.09

Um caso documentado de possessão eletrodemoníaca


Chegamos ao final da primeira década do século XXI acostumados com os mais diversos problemas técnicos nos eletrodomésticos e produtos eletroeletrônicos. Estamos cercados de produtos xing-ling vagabundos, que compramos baratinho e que estragam 5 minutos depois de retirados da embalagem. Convivemos pacificamente com a obsolecência planejada que faz com que qualquer equipamento dure atualmente muito menos do que durava seu equivalente décadas atrás. Costumamos nos resignar diante de aparelhos que quebram ou deixam de funcionar seguindo o princípio mais básico e universal da Entropia que rege o Cosmos, pois qualquer geringonça eletrônica é como uma lâmpada: de tanto ligar e desligar um dia alguma parte do circuito gasta, queima. Isso é normal, previsível, esperado. Pois bem, não é de nada disso que falarei agora.

Meu problema é de outra esfera: eu sou proprietário de eletroeletrônicos possuídos pelo diabo. Talvez não pelo capeta himself, mas possivelmente por entidades subalternas, traiçoeiras e malignas. Meu aparelho de DVD, por exemplo, está possuído. Não há dúvidas. Você, no entanto, pessoa racional, de pouca fé, há de perguntar: como sei que o tocador de DVD está realmente possesso e não é apenas o tal já comentado mal funcionamento dos aparelhos eletrônicos? Simples, caro leitor, querida leitora. Problemas eletrônicos tendem a ser reprodutíveis, apresentam padrões. Meu aparelho de DVD, não. Os problemas são aparentemente aleatórios. Mais que aleatórios, são propositalmente perversos. Ele recusa-se a passar justamente as cenas mais fundamentais dos filmes, mesmo em DVDs novíssimos, recém-desembalados da caixa. Filme ruim, toca direitinho. Filme bom, não há maneira. E não é só. Abre e fecha a gaveta sem ninguém comandar, dá eletrochoques ao apertarmos o botão de eject, desliga e liga por conta própria em horários completamente despropositados.

Claro que levamos o aparelho à assistência técnica, que não constatou nada de anormal, funcionamento perfeito, tudo em ordem: 230 reais. Ao chegar em casa, revoltado talvez com a nossa impertinência, o aparelho de DVD encapetou-se de vez. Agora só abre a gaveta 5 minutos depois de desistirmos de apertar todos os botões. Até chegou a cuspir um DVD do Buñuel, arremessando-o na parede oposta, derrubando porta-retratos de mamãe. Mais recentemente deu para fazer um barulho tipo rrrrrrrrkkkkkkkk ao abrir a gaveta. Mas não um rrrrrrkkkkkk qualquer. Um rrrrrkkkkk meio tétrico, que parece vindo de longínquas dimensões lovecraftianas.

Mas tudo isso, apesar de absurdamente estranho, não vinha nos incomodando tanto, a princípio, ficando, assim, no campo do folclórico: "Olha só, hahaha, temos um DVD player encapetado! eheheh". Passamos a assistir a quase todos os filmes diretamente no computador, a despeito dos grunhidos ameaçadores e resmungos abafados vindo do canto da sala onde os leds vermelhos do DVD player brilham como dois olhos demoníacos na escuridão.

13.10.09

Che no cinema

Guerrilheiros da Fuzarca - Irmãos Marx
(An evening at the jungle, EUA, 1954)

Filme menor dos Irmãos Marx. Tem uma única cena divertida: quando Che ataca e mata os soldados bolivianos com seu desodorante avanço da retaguarda vencido. "São as táticas de marketing de guerrilha, nenem." — diz Groucho/Che dando uma longa baforada em seu cachimbo de ópio do povo. Pena que todos morram no final, torturados em Guantánamo.



El Mago de Habana, o Musical - Bob Fosse 
(Porto Rico/França, 1962)

 Três guerrilheiros, Fidel, Che e Curly, caminham sobre o sendero luminoso de pedras amarelas a fim de pedir ao Grande Leviatã um cérebro de ouro, um coração de incenso e a relíquia número 3, o pinto falso do antidopping de Maradona, feito de mirra.

Uma cena memorável é o duelo de trompetes onde Che, apesar da asma, vence Fulgêncio Batista com o apoio estratégico da banda militar As Maracas de Marrocos.

O filme chega ao ápice quando uma multidão coreografada de rumbeiros trotskistas das FARC invade as praias de Tegucigalpa cantando seu refrão imortal: "Jo no puedo bailar, porque soy de Cochabamba." Todos morrem no final.


Ai, Che, que vara! - Davi Cardoso 
(Brasil - 1974)

Pornochanchada com Ali Kamel, o consagrado rei da sacanagem, interpretando Guevara e Paulo César Pereyo no papel de Fidel Castro. Os dois são vendedores de camisetas e chinelos tarancón na praia de Copacabana e se passam por médicos argentinos para levar ninfetas politicamente alienadas (Nicole Puzzi, Henriqueta Brieba e Sasha) para seu abatedouro no Jardim Botânico, onde são seduzidas, descamisadas, drogadas e enviadas para surubas paramilitares com Evo Morales (Mercedes Sosa) no Araguaya. O esquema todo é desmantelado quando Henry Kissinger (Hugo Carvana) invade o aparelho matando todos no final.


Mártir - Costa Gavras 
(Lonely red star - Nicarágua/Albânia, 1979)
Raul Julia interpreta Che Guevara.
Todos morrem no final.

5.10.09

beleza, 2016.


beleza, 2016. o nacionalismo bocó vai fazer 2 medalhas de ouro. uma no tênis de mesa, outra no taekendô. e o galvão bueno no desfile de encerramento dirá que podemos dar ao mundo o exemplo da organização, da simpatia acolhedora de um povo que entendeu o espírito olímpico e, vestindo a camiseta do banco do brasil, torceu, entendeu o espírito olímpico e vibrou, cantou, suou junto com os atletas. foram só duas medalhas de ouro. mas não tem importância. o que fica é o... taí o renato aragão, a maria ester bueno, o montanaro. é de emocionar. parabéns brasil! olha o torben, o grael... não galvão, o torben grael é uma pessoa só. sim, claro. logo atrás o jardel gregório, o waldemar quirino, o emerson, a hotência, essa gigante... diga alguma coisa, oscar. não tenho palavras, galvão, o Brasil é sonho. taí o oscar em lágrimas. e ele sabe. ele que viveu isso tudo. olha os fogos, os fogos!!! isso vem do morro, galvão, acabou o evento.

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Upidate

rio 2016. pm do rio cobra pedágio nos 400 com barreiras.

rio 2016. Belo é dúvida no tiro.

rio 2016. narcisa tamborideguy agora usain bolt. segundo ela é mais speed.

rio 2016. erro no lançamento do martelo atinge apartamento do moraes moreira.

barra da tijuca 2016. varre varre vassourinha, antigo badminghton, é apreciado pela família sarney em jantar no glória.

barra da tijuca 2016. marcelo crivella o tempo exato na prova dos tijolos.

barra da tijuca 2016. frequentadores do posto 9 usam andar da marcha atlética para comprar sorvete.

barra da tijuca 2016. cavalo de rodrigo pessoa vira mula no pavão pavãozinho.

barra da tijuca 2016. de sunga verde gabeira leva bronze nos 100 mariposa costas.

barra da tijuca 2016. dardo de dolabella tem que permanecer 15 m de distância da linha de luana.

barra da tijuca 2016. tocha olímpica rola na carioca e irrita Tyson Gay.

barra da tijuca 2016. adriana bombom mata a larica de phelps antes dos 200.

barra da tijuca 2016. ednei silva dá lance de peitinho e é aplaudida por camile paglia.

barra da tijuca 2016. chinesas acham mosquito da deng em alojamento.

barra da tijuca 2016. carga horária nas escolas do rio mudaram: 800 g no primário. 16 kilos no secundário.

barra da tijuca 2016. o jornalista dark do correio brasiliense " como é que o brasil ganha no salto em distância se mentira tem perna curta?"

Zé Luiz

22.2.09

Última do Zé

Lembram do Zé Luiz?
Não?
Não tem importância.

O que importa é que recebi uma missiva do repentista da aiauasca e gostaria de compartilhá-la com vocês.
É o que segue:


E o Lula quer ver a estréia do Ronaldo contra o Palmeiras. Só lembrando que o Serra é Palestra praca.
Só lembrando que o Ronaldo chamou o Lula de bebum. Só porque o Lula chamou o Ronaldo de gordo.
E se o Lula for esperto ele leva a Dilma. E se o Mano for Serra ele não põe o Ronaldo em campo.
Aí o Lula tira proveito do gol do Boquita. E a Dilma ri da plástica do gol. E o Serra culpa os flanelinhas.
Exige expulsão. Tira as placas de campo. Proíbe hino nacional. Vende o vestiário dos visitantes aos parceiros estrangeiros. Convoca o Ademir da Guia para inaugurar um novo museu do futebol.
Convida o Lula. O Lula vai. Leva a Dilma. Que abraça o Kassab. Conversam sobre Camile Paglia.
Chega o Clovis Rossi. Ele abraça a Dilma. Kassab vira para cumprimentar o Dimenstein. Dimenstein diz que a iniciativa do museu Palmeiras é ótima. Dimenstein cumprimenta Dilma. Diz a ela que ela lembra a sua professora mas as escolas públicas mudaram muito. Dilma concorda. Diz que tem piriPac quando pensa em educação. Chega a Dona Marisa Letícia.
Beija Lula na boca. Serra olha de viés. Pensa no Boquita. A derrota o incomada. Liga pro FHC. Ocupado. Liga pro novo diretor da Osesp.
Dispensa o cara. Liga pro Diretor do Masp. Dispensa o cara. Recebe uma ligação estranha. Liga pro Marzagão. Pede cautela nas blitzes no entorno do Capão.
Sabe que o Suplicy vai passar a noite lá, na biblioteca do Ferrez. Chama o Kassab de lado. Diz que virada cultural agora só até as duas da manhã.
Kassab liga pra mulher do Serra. Suspende ballet. Mulher do Serra liga pro marido. Como suspender ballet? Serra diz que tem planilhas que diz que ballet só é custo. Não tem resultados práticos na formação do povo. Mulher do Serra diz que vai ligar para o Maurício Kubrusly.
Chegam Leivinha e Dudu. Cumprimentam o Kassab. Kassab não sabem quem são. Bia Lessa se aproxima. Puxa Dudu pelo braço.
Mostra uma foto do Luís Pereira. Dudu chora. Leivinha chega. Vê Eurico no fundo da foto. Serra fala alto: “eu era pra torcer pro Juventus!”
Lula do outro lado: “eu pro São Caetano”. Dilma cutuca. “Não era São Bernardo, presidente? São Bernardo do Campo?” Silêncio.
FHC aparece. Se aproxima de Serra e diz que as prévias são necessárias. Mais perto do ouvido de Serra. “ o Aécio fez plástica”.
Serra vai ao banheiro. Liga pra Soninha. Diz a ela que não tolerará discurso de biker. Exige visitas nas regionais de mobilete.
Soninha liga pro pessoal da Mata Atlântica. Ninguém atende. Liga pro Sirkis. Não atende. Liga pra Renata Falzone.

“ Fala Sonita”

Pô, Rê. Preciso falar uma coisa urgente com vc.

Diga aí.

O Serra quer que eu ande de mobilete.

Caraca.

Pois é. Pelo que ouvi é por causa do Aécio.
O cara fez plástica.

Mas tão novo.

Esse negócio ed corrida presidencial...os caras levam a sério.
E, de certa forma, eu entendi. O Serra acha que bicicleta vai passar idéia de morosidade, coisa lenta e tal.
Ele quer todo mundo voando.

Já ligou pro Feldman?

Pô Rê, Feldman??
Puta tico-tico.

E o Sirkis?

Rê, sinceramente, eu faço uma puta confusão com o esse povo.
Quem é o Sirkis, mesmo? Eu confundo com o Minc.

Mas sabe quem é o Walter e quem é o Fábio?

Os Feldman? Claro. Fiz campanha pros caras em Ubatuba.
Gente estranha. Depois eu vi que eles se resumiam a alguns adesivos.

Eles tinham uma Kombi. Então, zuzu, vc pode ter uma mobilete.

Mas e a minha idéia de ciclovia?

Ah, Sô. Gostava tanto de vc na GNT.

Continua essa porra aí que o google ethilics não funciona no carnaval ...

O Casagrande e o Cesar Maluco saem do banheiro...



Zé Luiz.

1.10.08

I had a dream

Venho aqui, com muita alegria, aceitar a indicação do partido democrata. Venho trazer uma mensagem de esperança aos cidadãos dessa grande nação.
Eu tive um sonho. Sonhei que nesse país as pessoas não eram mais julgadas pela cor de sua pele, mas pelo seu caráter. Sonhei com um país de oportunidades iguais para brancos, negros, amarelos e cinzentos.
Nesse sonho as pessoas pareciam ter cabeça de algodão e um chapéu engraçado na cabeça e as nuvens eram feitas de calda de chocolate com amendoim e meio que pingavam no meio da rua deixando tudo melequento.
Depois eu ia para um hotel, que não era bem um hotel, era uma espécie de navio. No porão do navio parece que tinha lá umas vacas de escafandro que eram super inteligentes mas ninguém podia entrar lá no porão por causa da radioatividade delas. Daí eu entrava em um salão enorme cheio de gente com bandeirinhas que era a Convenção Democrata e eu pensava: "Damn! É hoje o dia da convenção, eu esqueci de fazer o discurso". De repente eu vi que estava sem calças em frente àquela multidão enorme. Eu tentava me esconder atrás do palanque mas a câmera da Fox News ficava mostrando a minha bunda no telão. Eu olhei para a platéia e vi a Hillary vestida de branca-de-neve, só que ela tinha asas de morcego. Nisso eu olhei a minha mão e vi que ela estava toda preta. Daí eu pensei. "Holy sh*t! I am a f*cking nigger! F*ck! F*ck! Oh F*ck!". Aí chegava a Sarah Palin e começava a atirar em todo mundo na convenção. Era uma carnificina total. Até que a Hillary Clinton dava uma voadora no peito da Palin e arrancava a cabeça dela com sua vagina dentada.

América, eu tive esse sonho. Gostaria de compartilhá-lo com vocês. Sei lá. O que será que significa?

28.1.08

Nostradamus Detetive

Aliás, seguindo a linha de best-sellers cultuados do momento, com todos esses romances de mistério histórico-místico-cabalístico, pensei em criar a série Nostradamus Detetive, o investigador que descobre os mais intrincados crimes e mistérios em 15 segundos cravados.

Quando chega na cena do crime, Nostradamus já sabe absolutamente tudo sobre o que aconteceu, inclusive o que o dono da taberna haveria de dizer em seguida, revela de imediato quem é o criminoso, como foi que aconteceu exatamente, a motivação dos três assassinos e a razão pela qual a misteriosa chave dourada que abria a porta da adega do Conde Bulhufas ter sido encontrado no esôfago da avó mumificada na tumba atrás da parede secreta na Catedral de Chartres. Dito isto, invariavelmente Nostradamus pede uma sopa de repolhos e vai embora.

Tudo muito rápido. Seriam romances históricos realmente curtos, para quem não tem paciência com o calhamaço de folhas que compõe os best-sellers atuais pois, afinal de contas, ninguém tem mais tempo para ler mais nada hoje em dia, não é mesmo? O Enigma da Papisa Francha, por exemplo, em no máximo em 5 páginas já estaria tudo resolvido, incluindo a descrição pormenorizada do transplante de sexos executado pelo Leonardo da Vinci. Outro: Nostradamus Detetive em Paracelso e a Receita Perdida do Panetone de Platina — o capítulo mais comprido seria o título.

Ou, ou, ou poderia haver uma linha completamente diferente do profeta-detetive. Seria um Nostradamus que tem visões dos acontecimentos futuros mas não os do passado, tendo que deduzir, pelas suas visões do porvir, como foi que o crime ocorreu. Ou seja, uma coisa um tanto mais complexa, mais elaborada, evaporando de vez minhas previsões douradas de um best-seller com Nostradamus Detetive.

1.1.08

Nós Travamos - Edição 2008

Abri os ouvidos e escutai todos vós,
pois caem-se os véus, desatam-se os nós,
ouçam atentos os presságios espúrios,
o meu canto de dor, o meu canto de augúrios



Centúria I - Política Internacional

Ao fazer novo exame mitocondrial,
descrubrir-se-á que o menino Emmanuel
é mesmo filho do Barak Obama
(mas isso só será revelado bem no final da campanha)

Porém depois de Obama asssassinado
a tiros, o papel em Roliúde será disputado
por Denzel Washinton e pelo Will Smith
mas ficará mesmo com o Sean Penn, acredite!

O mandato de Bush acabará muito antes da data prevista
pois se tornará permanente a greve dos roteiristas
sem discurso, sem planos, uma tremenda bagunça,
acabará sendo salvo contratando o Duda Mendonça

Filhos de Mises, o Paraíso dobre a Terra
sem taxas, sem Estado, sem guerra
Ron Paul abdicará de todo seu salário
e transformará os EUA no apogeu libertário

Uma felicidade que ninguém proíbe
Colômbia e Venezuela se porão em festa
quando Hugo Chávez e Alvaro Uribe
casarem-se secretamente no meio da floresta

Em uma crise de energia e o mundo em recessão
Bush dirá fuck it e e invadirá o Turcomenistão
a Dinamarca tornará obrigatório o casamento gay
e pelo lance mínimo a China comprará Cuba no eBay


Centúria II - Política Nacional

Será o candidato mais votado o Enéas Carneiro
prefeito da grande maioria dos municípios brasileiros
será o maior tirano-do-além da História Nacional
embora, tecnicamente, apenas em nível municipal

Como a graça solene de um serafim
prometendo cumprir o mandato até o fim
Marta Suplicy, humilde, será toda pruridos
e não disputará a presidência dos Estados Unidos

E, peraí, gente, que tem mais, tem mais!
Um grande escândalo estourará em todos os jornais
noticiando que Lula, Sônia Hernandes e Reinaldo Azevedo
recebem do bolsa-famíla sem comparecer ao emprego


Centúria III - Área Cultural, metafísica, sócio-ambiental e adjacências

chegando no fundo do poço
quando mais não se pode descer
quanta surpresa não trará
o Corínthians na série C

Desastre aeronáutico-esportivo
falha da Anac deve ser o motivo
Cairá um avião com a toda a seleção brasileira
sobre o estádio olímpico na cerimônia de abertura

Rubens Ewald exclamará "ui, que meda!"
ao assistir a produção da Pixar com o ratinho da Al Quaeda
e depois, congelando na sunguinha cor-de-rosa
processará Al Gore por propaganda enganosa

abrir-se-á, por fim, o sétimo selo da sétima arte
a potência talentosa da Regina Duarte
interpretará uma venezuelana extremamente má
causando uma superlotação no Cine Marabá


Centúria XIII
- Xiiii

Quem ainda tiver olhos verá!

16.5.06

Tá dominado! Tá tudo dominado!

Exigências feitas pelo Primeiro Comando da Capital que NÃO foram negociadas pelo Governo de São Paulo e NÃO foram atendidas às 16:30hs de ontem, antes do Jornal Nacional.

- Banheiras de hidromassagem nas celas de Presidente Bernardes. Massagem tailandesa. Acupuntura.

- Um telão de plasma em cada cela do "comando" para poder ver a Copa do Mundo. Se possível, Ronaldinho deve, ao fazer um gol, comemorar mostrando a tatuagem do PCC.

- Permissão de visitas íntimas. Da Luana Piovanni, Cleo Pires e Juliana Paes. Na casa delas.

- A retirada imediata das tropas brasileiras do Haiti.

- Férias remuneradas, décimo terceiro, licença maternidade, vale refeição, plano de milhagem.

- Que os uniformes dos presidiários sejam feitos pelo estilista Rogério Figueiredo.

- Que sejam permitidas duas horas de banho de sol diárias. Em Angra dos Reis.

- Que se instalem imediatamente bloqueadores de celulares no Palácio dos Bandeirantes.

- Que o Cláudio Lembo devolva imediatamente as sobrancelhas ao Boris Karloff.

- Que o Fleury se abstenha de abrir a boca em momentos de crise na segurança pública.

- Que lhes seja oferecida a vaga de vice na chapa de Alckimin.

- Que seja feito filme sobre a história e Glória do PCC feito pela Conspiração Filmes com verbas da Petrobrás. Marcola seria interpretado pelo Gianecchini, o Fernandinho Beira-Mar pelo Marcurélo e o Evo Morales pelo Zacarias.

- Que o Corinthians volte imediatamente à Copa Libertadores. Não, pensando bem, melhor nem jogar. Que mandem entregar a Taça de 2006 diretamente no Parque São Jorge.

atenciosamente,
PCC

12.5.06

Enquanto isso, naquele blog ali à direita…

Depois de mais um post resmungando sobre a inutilidade dos brasileiros, as palavras e os sinais gráficos fazem uma pausa no trabalho e relaxam tomando chá de jasmim sentadas sobre as caixinhas de comentário.

— Achei uma bostinha! — fala a conjunção balançando os pezinhos sobre a caixa de comentários enquanto mistura duas gotas de leite chá.
— O post? — pergunta o ponto de interrogação.
— Não, — diz a conjunção com um gesto vago da colherzinha — os leitores!
O predicado verbo-nominal completa — Eu também achei. Não são péssimos?
— Lamentáveis. — ecoa um advérbio — Você viu o carequinha que tirava meleca enquanto lia? E aquele outro que tinha um programa de mapa astral aberto no fundo da tela? Que gente mais ridícula.
— Yuk! E não é só isso. Tem leitor que vem aqui depois de ler a Veja Online.
— Oh, so disgusting! — tremelica um anglicismo!
— Me dá até uns asteriscos… — completa as reticências.
— Juro! Lêem a sessão de cartas da Veja e vem aqui sem nem mesmo tomar um banho antes, — o expletivo, irritado, pensa em pegar o ponto de exclamação para bater em todo mundo. — Me dá um nojinho! Que bando de corjas!
Uma adversativa tenta amainar — Calma, não é bem assim. Vocês estão generalizando, deve haver algum leitor decente.
— Que nada! São todos, todos, todos péssimos. Olha aquele ali nos espiando com aqueles óculos sujos: mal construído, alegórico, francamente caricato! — reclama o anacoluto.
Um artigo feminino aponta para o monitor com sua serifinha. — E esse que está lendo esta frase aqui, então, que parlapatão! É o pior de todos! Ele é uma verdadeira plétora de pastiches dos piores clichês de leitores. Olha aí, quer até deixar um comentário todo nervosinho.
— Escrever comentários… que indignidade! — indigna-se o expletivo fazendo chacoalhar a xicarazinha.
— Uma indignidade! — ecoa a redundância.
— Feliz era o Goethe cujos leitores liam o Werther e depois se matavam pulando da ponte, bebendo água sanitária, essas coisas. — continua o anacoluto — Aqueles sim eram leitores respeitáveis. Aqui, uns lêem até comendo fandangos sabor churrasco. Aposto que alguns sequer estão calçando sapatos ao ler o texto.
— Ou sequer usando roupas. — resume a conjunção.
A onomatopéia bufa — Pfui.
— É o fim, meus caros, é o fim. — Conclui o ponto final.

5.5.06

Três bolas na trave e uma para fora

1 - O Corinthians é uma estátua com cabeça de ouro, torso de prata, pernas de bronze e salto alto de vidro. Chama o Zveiter!

2 - Getúlio Vargas era um volante de contenção que de vez em quando fazia uma jogada de efeito. Dava um lançamento de trivela, como o Dunga, que também era gaúcho. Mas sua especialidade era o tiro livre da marca do pênalti.

3 - Pai Ratapulgo prediz: O Campeonato Carioca de 2007 terá na decisão o time dos casados contra o dos sem camisa. Que vencerão respectivamente o time da contabilidade da Riotur e o dos veteranos do Olaria nas semifiinais.

Mas há sempre que se retomar os crássicos

O "Ronaldinho em Corinto" de Eurípedes, por exemplo, é uma pequena obra-prima da literatura universal. Salientando o lado mais humano-a-mano de Ronaldinho, mostra a paixão, ascensão e queda do Menino-Mito da arquibancada do Corinto durante o jogo contra o Atlético de Siracusa. Um crássico.

Outra obra fundamental do ciclo ronaldineano é a peça "Ronaldinho-Meu-Rei" de Sófocles. Nele, a luta contra o Destino Arretado é o eixo central. Em sua fuga para Bahia, num ônibus do Expresso Brasileiro, Ronaldinho descobre que é filho de sua própria mãe, prostituta e dançarina de axé no Oráculo de Feira de Santana. Aperreado com a revelação, fura os olhos de seu compadre Severiano Tirésias, só de farra. Depois dá três tecos na Esfinge-Traveca de Itaparica e torna-se Imperador-da-cocada-preta da Bahia do Egeu, Jônico e adjacências. Crássico dos crássicos.

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2.5.06

Nefelibata de carteirinha

marcelinaraczita03.jpg

Para que toda essa arte abstrata aí se existem nuvens? Mesmo na mais pavorosa cidade há nuvens. Mesmo a massa cinza de uma nuvem amorfa ainda será dezenas de vezes superior a um Rothko, a um Pollock, a um Mondrian. A sua janela já é uma moldura. Aliás, minto. A moldura é que foi criada para assemelhar-se a uma janela. Veja as nuvens douradas do crepúsculo. As brancas-carneirinhas do meio-dia. As plúmbeas de chuva. Aquela parece um dromedário e a outra lembra o ex-ministro Reis Velloso. As descabeladas Cirrus radiatus; as translúcidas Stratus undulatus; as elegantérrimas Altocumulus; e, claro, as poderosas e imponentes Cumulonimbus, minhas preferidas. A natureza tem coisas bonitas pra caramba. As nuvens estão dando espetáculo permanentemente. Sem cobrar ingresso. É arte subsidiada vinda diretamente da palheta divina. Para que ficar sujando telas com arte abstrata, então? Só para movimentar a indústria de vinhos brancos horrorosos das vernisages? Nah! Não vale a pena. O cavalheiro aí do fundo levantará a mão e dirá que há pessoas que não têm janelas, que têm muros de tijolos altíssimos cercando suas casas; ou que existem pessoas vivendo em containers lacrados amarradas em cobertores de lã espessa. Mas será que essas pessoas, meu gentil cavalheiro, não têm sequer dinheiro para comprar um bom microscópio e colocar um inseto, qualquer inseto, sob as lentes em suas horas de lazer? Se o senhor quer arte abstrata de altíssima categoria repare nos detalhes dos omatídeos de um pirilampo comum. Ou, se houver pelo menos uma fresta de janela em sua casa, repare nas nuvens que passam agora sobre seu bairro. Deixem as paredes em paz, eu digo, elas são suas amigas, elas não fizeram nada contra vocês, não as queiram mal, não as torturem. Abdiquem da arte abstrata e vão olhar pela janela. As paredes agradecem.


Semana que vem: as 293 vantagens da lareira sobre a TV aberta.

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A pedidos:

The Cloud Appreciation Society

Cloud Types tutorial

Cloud Collector

28.4.06

O menino que tinha um pato grudado na orelha direita

para Antoniete

Os médicos dizem que as possibilidades são muito remotas. Algo como uma chance em cinco trilhões. Mas ele dera muito azar. Nascera com um pato grudado na orelha direita. Um patinho meio desbotado, as penas cinzas todas eriçadas, com carinha de patinho injuriado. As crianças tiravam sarro na escola. Olha lá o cabeça de pato. Cuem-cuem! Cuem-cuem! Virou seu apelido. Cuem-cuem. Crianças são maldosas como só seres puros e inocentes conseguem ser. Cuem-cuem começou a andar com um chapelão de aba larga que pegara emprestado com seu pai, que era gigolô de cinema americano da década de 70. As crianças, então, passaram a chamá-lo de Cuem-Cuem Chapelão. E Cuem-Cuem Chapelão passou a não mais tirar o chapelão de feltro preto com lantejoulas e alimentava o pato escondido por debaixo da aba, porque muito pior que ter um pato grudado na orelha é ter um pato morto grudado na orelha. Mas a Natureza é mesmo uma coisa espantosa, linda, sábia e gostosuda. Certo dia de muito calor e luminosidade, Cuem-Cuem Chapelão retirou o chapelão que lhe cobria a cabeça, olhou-se no espelho e viu que, miraculosamente, o pato em sua orelha direita desaparecera. Grudado em sua cabeça agora estava um belo e majestoso cisne branco.

27.4.06

É tudo verdade

Carmen Miranda era portuguesa
Fernando I, o Collorido, é carioca
Fernando II, o Car(i)doso, é carioca
Freud era tcheco
Henry Ford odiava judeus
Hitler era vegetariano e adorava astrologia
Humphrey Bogart era campeão de xadrez
Jesus não era cristão
Júlio César era epiléptico
Karl Marx comia a empregada
Maria confundia a trompa de eustáquio com a de falópio
Maomé era pedófilo
Oscar Wilde era socialista
Otto Lara Resende escrevia, no mesmo dia, dois editoriais de dois jornais de linhas políticas opostas
Sidney Magal é a melhor criação literária de Paulo Coelho
W. Bush não é caipira
Zulaiê apaixonou-se por um chantagista

25.4.06

O Colecionador da Linha Branca

Eu sei que o carro é um símbolo de status, de liberdade, do tamanho da genitália e tudo mais. É coisa muito apreciada, principalmente pelos machos da espécie. Mas pra mim automóvel é apenas um outro eletrodoméstico. Um videocassete que paga IPVA. Por isso nunca irei entender a paixão e devoção características dos apaixonados por automóveis. De todas as maluquices que os XY padecem essa é uma que decididamente não compartilho (creio que gostaria mais de carros se eles já viessem equipados com assento ejetor e buzina com barulho de metralhadora).

Todo amante de automóveis, é claro, gostaria de ser um colecionador de carros. Anseiam possuir um Jaguar negro, um Aston-Martin prata, uma Lamborghini vermelha ou um Maverick cor-de-abóbora em uma garagem bem grande. Eu fico imaginando essa coleção e o meu pensamento migra imediatamente para um colecionador de geladeiras, liquidificadores ou secadora de roupas. Logo imagino senhores empolgados que levam seus convidados a um enorme galpão onde eles guardam e expõe suas Figidaires vintages, suas Consuls classics e suas Brastemps maravilhosas de três andares e oito portas.

- Observem que maravilhas! Essa aqui é uma geladeira dinamarquesa de 1958. A gaveta de frutas é expetacular. Não se faz mais geladeiras assim, não senhor! Nenhuma resfria verduras como ela: repare como ficam geladinhas mas não úmidas. Esta outra aqui - que motor, meu caro, que motor! - tem o congelador que vai de 30 a 0 graus em 9 minutos e 32 segundos. Um fenômeno! Esta outra - você não vai acreditar - eu achei praticamente jogada em numa feira em…

24.4.06

Roman à clef

bonekey

Para preservar as pessoas envolvidas, os nomes, a época e os locais serão alterados. A amante será denominada Panda Fenomenal; a ex-Primeira Dama será chamada de Bolo de Fubá; o jardineiro será denominado Peter Potamus ou Seu Malaquias da Vendinha, alternadamente. Carmônio é um acrônimo de Acrônimo. E, para preservar minha privacidade, eu serei chamado de Toshiro Mifune e usarei uma máscara do Dr. Zaius. Todo ato de cópula será substituído pelo nome de algum esporte jogado em dupla, como o ping-pong, tranca ou nado sincronizado. A trama agora se passará em 1783 a. C.. E, por fim, toda a ação externa transcorrerá nos everglades da Flórida e a interna em um mosteiro mal-assobrado na Catalunha em vez do Palácio da Alvorada em Brasília.

18.4.06

O Olimpo é aqui

Deuses gregos habitam São Paulo. Não, não estou a brincar. Anteontem de manhã, Ártemis, a virgem caçadora, veio a ter comigo na frente da padaria, o filho no colo, precisava de dinheiro para completar a condução até a Parada de Taipas. Foi então que comecei a reparar melhor. Descobri que Hermes trabalha como moto-boy na Entregas Mercúrio e Atena abriu um salão de cabelereiro no Jaçanã. Foi impossível não reconhecer o caolho Hefaísto em uma barraquinha de cachorro-quente na Barão de Itapetininga. Entre mordidas na iguaria, o antigo senhor do Hades confidenciou-me que não são apenas os deuses gregos que habitam estas paragens: Tutatis tem uma borracharia na Vila Carrão; Puzuzu, da Mesopotâmia, é ascensorista na Galeria Pagé; Quetzalcoatl, deus humanizador dos astecas, vende CDs piratas na Lapa de Baixo; Odin ganha a vida como homem-sanduíche, anunciando a compra e venda de ouro e passes de metrô.

Os deuses, eles não estão mortos. Apenas mudaram-se para São Paulo.

10.4.06

A Maldição do Taxista

Vai rolar um momento diarinho misturado com seção esportes e um pouco de parapsicologia. Tenham um pouco de paciência ou a bondade de dirigir-se ao guichê ao lado. Obrigado.

Grenal2

Pois então: eu e a digníssima e encantadora Mrs. Ratapulgo resolvemos torrar os Smiles em Porto Alegre e assistir ao Gre-Nal. Fomos recebidos com toda a pompa e circunstância pelas megeras magrelas Ticcia, Ro e a rechonchuda Solineuzza.

Na saída do aeroporto, o taxista gremista já pressagiava: "Não quero ganhar, quero empatar em 1X1". Este seria o placar mínimo para o Grêmio ser campeão. Menos que isso, insuficiente; mais que isso, desnecessário. A nossa adorada Hooligan Fucsia, com seus cílios de fada e língua de feiticeira arrematou a praga: "Quero o gol de empate aos 52 minutos do segundo tempo feito com a mão enquanto o centroavante tricolor pisa na cabeça do goleiro, só para os colorados ficarem 7 anos reclamando desse jogo".

(É importante uma pequena digressão didática a respeito do ludopédio nos pampas. O futebol gaúcho apenas pode ser conceituado como "futebol" num sentido muito generoso e abrangente da palavra, pois ele é, na verdade, uma espécie de rugby que evita conduzir demasiadamente a bola com as mãos. No Rio Grande, a falta é a regra e um Ronaldinho Gaúcho uma total aberração. Praticamente só vale gol de cabeça, por atropelamento ou fratura exposta e ganha o time que terminar a partida com mais de sete sobreviventes em campo. Boleiro gaúcho mesmo, de vera, não calça chuteiras, usa ferradura.)

O Inter, invicto há dois meses, líder de sua chave na Libertadores, buscando o pentacampeonato, enfrentava em seu estádio lotado o Grêmio, um time limitado, recém-eliminado da logo na segunda fase da Copa do Brasil pelo inexpressivo 15 de Novembro. Porém todo clássico é um momento de singularidade. E assim foi, o Inter mesmo não jogando muito bem, dava caneta, dava chapéu; o Grêmio só na base do carrinho. Cumprindo cegamente seu papel no augúrio, o Internacional fez o seu gol em uma bela troca de passes na área, comemorou uma barbaridade, tudo dentro dos conformes, tudo como fora revelado pelas entranhas dos quero-queros. E para a profecia se realizar completamente só faltava aquele meio-gol gremista, e ele veio, de cabeça, em uma cobrança de falta, uma meia-cabeça, um gol de nuca, praticamente com a cervical, um gol tosco, como manda a etiqueta de uma final gaúcha. A Maldição do Taxista e o Augúrio da Megera se cumpriram finalmente e neste dia o pôr-do-sol no Guaíba foi azul.

Pois está escrito que campeonato gaúcho nunca será vencido pelo melhor, mas pelo time mais gaúcho.

7.4.06

Arcano VIIII - O Eremita

Rogério sussurra – Porra, André, o pastor falou pra gente não vir pra cá, cacete!
– Se quiser ir embora, pode ir. Já que é de grátis, eu vou usar meu vale-consulta.
– A gente só vai atrair coisas ruins. Vamos embora!
– Nada, vai ser divertido, se acalma.
– Shhhiu, a mulher vem vindo.

André e Rogério estão sentados em um canapé verde-musgo aveludado. Muitas velas com cheiros imcompatíveis estão acesas em pontos diversos da casa. A luz bruxuleante revela estantes repletas de quinquilharias esotéricas, cortinas com estampas de frutas coloridas, fotos antigas em molduras ovais, flores de plástico, estátuas de santos e relógios. Uma grande coleção de relógios parados. Rogério repara em um canto - Aquele bicho é de verdade ou está empalhado? - Uma sombra grande começa a invadir a sala mal iluminada.

- Por favor, passem à sala de consultas. – Madame Cassandra, uma senhora grotescamente gorda e maquiada indica uma saleta lateral atrás de uma cortina de miçangas.

A pequena saleta está engolfada pelo incenso que cheira a sabonete de rodoviária do interior. Cartas embralhadas. Corte com a mão esquerda. A primeira carta é o O Eremita. Os rapazes se entreolham. A figura da carta mostra a figura um tanto familiar de um velho barbudo carregando uma lanterna e um cajado.

- Há um estranho perseguindo vocês.
- Olha, é mesmo! - diz André rindo e apontando a carta - É igualzinho àquele mendigo maluco.
- E... a senhora… saberia o que esse homem quer com a gente? - balbucia Rogério.

As mãozinhas gordotas viram uma segunda carta. O Louco.

- Este senhor quer recuperar a sua sanidade, sua lucidez. - responde a cartomante com sua voz adiposa.

Terceira carta. Cavaleiro de Copas.

Madame Cassandra aponta para André o seu indicador de unha roxa e anel de hematita.

- E ele deseja transmitir a loucura dele para você, menino – e só para você.
- Opa, que legal! Eu sou esse cavaleiro aqui com a taça dourada, é?
- Meu, se liga! Eu não posso saber o que ele tem para dizer pro André? E por que só o André?

A cartomante vira a carta O Sol onde aparecem duas crianças.

- Por causa do seu irmão gêmeo, menino.
- O Vicente?

Ela vira mais uma carta. É um Três de Ouros.

- Não, o outro. O terceiro gêmeo.
- Putz! Mas ele morreu quando eu e o Vicente nascemos.

A face molenga da vidente faz um muxoxo como quem diz “Sim, mas o que eu posso fazer?"

- E qual que é a carta do Rogério? Aposto que é o Boiola sem Espadas, haha.
- Cara, eu vou te dar uma muqueta na fuça! Mas, afinal, o que o mendigo está querendo dizer para o André?

Madame Cassandra retira mais uma carta do maço mas não a deposita na toalha vermelha. Seu rosto se contrai. Os olhos reviram. Ela grunhe e cai de cara na mesa. A carta ainda em sua mão, virada para baixo.

- Puxa vida, logo agora que eu ia perguntar quem vai ganhar a Copa da Alemanha!

Rogério dá um cascudo em André.

- Ai, cacete!
- Eu avisei. Você não tá vendo que isso é sério?
- Pombas, Rogério, - André baixa a voz - vai dizer que você está acreditando nesse teatrinho?

Rogério não responde. Ele se concentra na carta sob a mão da vidente. Ele cria coragem e a puxa para si, temendo que a carta traga a figura inequívoca da Morte com seu esqueleto risonho e foice. Mas ao virar a carta ele também empalidece.

A carta está completamente em branco.

22.3.06

A corrupção como modalidade olímpica

in memorian

Assistindo aqui do alto da montanha o esforço de César Maia para conseguir concluir as obras para o Panamericano me deu essa idéia. Transformar nossa a desvantagem em vantagem e incluir a corrupção como uma modalidade olímpica.

Alguns argumentariam que corrupção não é esporte. Alegariam que a corrupção é apenas uma prática cultural endêmica assim como o gerundismo e a lipoaspiração. No máximo a corrupção seria um lazer, uma espécie de passatempo nacional como assistir novelas e chutar cachorro morto. Dificilmente poderia ser considerada uma modalidade olímpica.

Digo eu, no entanto, que a corrupção em seu state of art exige muita técnica, nervos de aço e sangue frio. Quem já foi parado por guardas rodoviários sabe que há até um certo timming envolvido. E esforço físico também. Reparem como suam nas CPIs os depoentes sem mandato de segurança. Transpiram como decatletas em seu último sprint.

A corrupção é certamente uma categoria esportiva como já provaram Alberto Dualib, Eurico Miranda, Edílson Pereira de Carvalho et caterva. E convenhamos: se o tiro ao prato, afogamento sincronizado e a peteca (ué, badminton não é peteca?) são modalidades olímpicas não vejo o porquê da corrupção não ser.

A única diferença é que a corrupção seria a única modalidade em que o Comitê Olímpico eliminaria todos os que NÃO se doparam.

O Brasil está muito bem treinado e teria chances reais de medalha nas categorias Superfaturamento, Tráfico de Influência, Desvio de Verbas, Compra de Deputados, Licitações Fraudulentas, Nota Fria, Nepotismo, Sonegação, Carteirada e Caixa 2.

Ganharia a medalha de ouro aquele que subornasse o funcionário com cargo mais alto no COI. No pódium os atletas molhariam a mão dos juízes para receber as medalhas — cópias de latão, claro, pois as originais teriam sido escamoteadas por um notório corrupto anônimo, o verdadeiro campeão.