20.2.06

You know what one of the greatest fucking scripts ever written in the history of Hollywood is? Top Gun.

Um filminho besta toda a vida. Sleep with Me. Mas tem uma pequena cena, absolutamente gratuita, na cozinha de uma festa onde o Tarantino (Sid) conversa com um outro bêbado pendurado por lá. Coisa fina, confira:

Sid: You want subversion on a massive level. You know what one of the greatest fucking scripts ever written in the history of Hollywood is? Top Gun.

Duane: Oh, come on.

Sid: Top Gun is fucking great. What is Top Gun? You think it's a story about a bunch of fighter pilots.

Duane: It's about a bunch of guys waving their dicks around.

Sid: It is a story about a man's struggle with his own homosexuality. It is! That is what Top Gun is about, man. You've got Maverick, all right? He's on the edge, man. He's right on the fucking line, all right? And you've got Iceman, and all his crew. They're gay, they represent the gay man, all right? And they're saying, go, go the gay way, go the gay way. He could go both ways.

Duane: What about Kelly McGillis?

Sid: Kelly McGillis, she's heterosexuality. She's saying: no, no, no, no, no, no, go the normal way, play by the rules, go the normal way. They're saying no, go the gay way, be the gay way, go for the gay way, all right? That is what's going on throughout that whole movie... He goes to her house, all right? It looks like they're going to have sex, you know, they're just kind of sitting back, he's takin' a shower and everything. They don't have sex. He gets on the motorcycle, drives away. She's like, "What the fuck, what the fuck is going on here?" Next scene, next scene you see her, she's in the elevator, she is dressed like a guy. She's got the cap on, she's got the aviator glasses, she's wearing the same jacket that the Iceman wears. She is, okay, this is how I gotta get this guy, this guy's going towards the gay way, I gotta bring him back, I gotta bring him back from the gay way, so I'll do that through subterfuge, I'm gonna dress like a man. All right? That is how she approaches it. Okay, now let me just ask you - I'm gonna digress for two seconds here. I met this girl Amy here, she's like floating around here and everything. Now, she just got divorced, right? All right, but the REAL ending of the movie is when they fight the MIGs at the end, all right? Because he has passed over into the gay way. They are this gay fighting fucking force, all right? And they're beating the Russians, the gays are beating the Russians. And it's over, and they fucking land, and Iceman's been trying to get Maverick the entire time, and finally, he's got him, all right? And what is the last fucking line that they have together? They're all hugging and kissing and happy with each other, and Ice comes up to Maverick, and he says, "Man, you can ride my tail, anytime!" And what does Maverick say? "You can ride mine!" Swordfight! Swordfight! Fuckin' A, man!

18.2.06

Quando o Homem de Bucareste chegar

Serão tempos dos pulmões de areia e chumbo,
As sementes secarão nas palmas das mãos,
Colheitas se perderão, as frutas murcharão,
Nas casas, uma a uma, todas as janelas se fecharão.

Quando chegar o Homem de Bucareste
Quando o Homem de Bucareste chegar

Ônibus e metrôs correrão vazios e sem direção,
Samurais de papelão e farrapos vagarão pelas esquinas,
Proxenetas se arrependerão, as igrejas lotarão,
Moleques se encharcarão de rum, éter e gasolina.

Quando chegar o Homem de Bucareste
Quando o Homem de Bucareste chegar

Cíclopes reumáticos de eletricidade, serpentes de carvão,
Cães uivarão o Silêncio nas cidades, aves rastejarão,
Dunas de areia invadirão as escolas e prefeituras,
Um vento negro e viscoso soprará quente do sudoeste.

Quando chegar o Homem de Bucareste
Quando o Homem de Bucareste chegar

Não haverá mais Páscoa
Não haverá café-da-manhã
Não haverá mais vitrines
Não haverá mais canções
Não haverá despedidas
Não haverá salvação

Anjos despencarão de suas coberturas,
Lágrimas de querosene as estátuas chorarão,
Silhuetas sujas e desesperadas peregrinarão
por água, provisão e lanternas em vão.

Quando chegar o Homem de Bucareste
Quando o Homem de Bucareste chegar

O asfalto queimará, os bueiros, todos, vomitarão,
Motores soltarão urros furiosos e depois estacarão,
A Lua amarela sangrará, o céu se estilhaçará
Em agudas lâminas de concreto, aço e latão.

Quando chegar o Homem de Bucareste
Quando o Homem de Bucareste chegar

E o Homem de Bucareste,
Com seu sorriso ancestral,
Tirará seus óculos escuros
Que cobre as órbitas vazias,
Acenderá um cigarro sem filtro
E nos consolará dizendo que está tudo bem
que não foi nada,
que já passou,
que a vida continua,
que tudo, tudo se ajeitará.

apenas pedirá para tomar um certo cuidado
pois comentam a boca pequena
que o Homem de Istambul
virá no final da semana.

16.2.06

um crime, uma ofensa a minha pessoa, uma agressão

Rudyard Kipling considerava entrevistas, de um modo geral, uma coisa absolutamente repugnante: "Por que me recuso a ser entrevistado? Porque isso é imoral! É um crime, uma ofensa à minha pessoa, uma agressão, e como tal merece castigo. Isso é desleal e mesquinho. Nenhum homem de respeito pediria uma coisa dessa, muito menos a concederia!"

Tendo estas retumbantes frases ricocheteando em meu crânio, decidi reunir a fina flor da imprensa local para uma coletiva, regada com muito suco de melancia e adubada com deliciosos space-cookies, no elegante jardim da casa de minha faxineira.


A Gazeta de Parelheiros - Em que idade tiveste a tua primeira relação sexual com horti-fruti-granjeiros? Houve reclamações do pessoal do supermercado?

Ratapulgo - Veja bem… (limpa a garganta) Ronald Golias já nos informava, no tomo terceiro de suas obras completas, que a política é coisa suja e rasteira. Eu concordo. Acho uma indignidade ficar discutindo questões políticas no próprio blog. É como criar porcos e ovelhas no tapete da sala. O lugar correto do comentário político é sempre do lado de fora, na caixa de recados do blog vizinho.

Jornal Falha de São Paulo - Quantas andorinhas são necessárias para carregar um coco da África para a Europa?

Ratapulgo - É uma pergunta capciosa. Pessoalmente creio terem sido feitos grandes avanços contra a corrupção durante o governo do PT. Sim, eu sei o que você está pensando. Não adianta fazer esse muxoxo. Eu também acompanhei tudo pela tevê, todo dia, como uma tia-avó se embebedando religiosamente com a novela das oito. Acompanhei com tal afinco que até comecei a fazer as contas: puxa, se no governo FHC um deputado, como o Ronivon Santiago, era comprado por 200 mil por votação e no governo do Lula um deputado passou a custar 30 mil por mês, quer dizer que houve uma economia espantosa de recursos investidos na corrupção dos parlamentares! Em um mês tem quantas votações no congresso? Umas 15, 20? Uma pechincha. Continuando nessa toada em pouco tempo os deputados já poderão ser comprados por três maços de Minister e dois sonhos-de-valsa por semestre.

Jornal O Estado de Espírito (Santo) - Como faz vossa senhoria para que seus cabelos fiquem sempre longos, macios e sedosos?

Ratapulgo - (descruza as pernas, coça o saco e volta a cruzá-las) Creio que a esquerda continuará firme e altaneira em seu novo papel histórico que é o de subornar políticos de direita para que aprovem no congresso projetos neoliberais.

O Nacional de Muzambinho - Qual é exatamente a diferença entre o Ralf Fiennes e o Liam Neeson?

Ratapulgo - Sim. O governo atual é de esquerda. O que não está claro se é da esquerda de quem vem ou de quem vai.

Metrô News - Em terra de olho quem tem um cego… errei?

Ratapulgo - Sem dúvida! (faz uma bolha de sabão com seu cachimbo). A Fernanda Young é o Diogo Mainardi sem calcinhas.

O Acendedor da Opus Dei - Por que todas as suas respostas tentam forçar uma conotação política? Por que essa ira santa? E essa saúde civil? What's your fucking problem, man?

Ratapulgo - A esperança é o único privilégio negado a Deus. Quem foi que falou isso mesmo? Eu anotei aqui num papelzinho e não lembro mais. Não sei se entendi direito, mas é bacana, né? (repete lentamente) A esperança é o único privilégio negado a Deus. (olha para o céu, suspira, olha para os entrevistadores, olha novamente para o céu fazendo a cara que Joey consagrou como "smell the fart". Depois faz um gesto amplo em direção aos jardins) Bom, meus caros, aproveitem o dia, usufruam das comodidades da casa. Temos uma piscina só de loiras, outra de ruivas e uma terceira de very-libertarians brunettes. Voltarei à minha hibernação. Se desejarem a qualquer momento falar comigo é só puxar essa cordinha que rapidamente levantará a grade que os separam de onze dobermans famintos. Obrigado. Até mais. Thank you, sao paolo!!

15.12.04

TS Eliot revisited

Abril* é o escambau! Dezembro é o mais cruel dos meses. Cruel assassino e maquiavélico. Pior que vilã caolha de novela guatemalteca.

* ok, setembro no hemisfério sul. Que diferença faz? Aqui sequer temos estações do ano direito. Esse país é uma esculhambação total. Nem o clima funciona.
Pfui.

8.12.04

the great events of the world take place in the brain

Então, o problema é o seguinte:

Estou no meio de uma viagem astral e não consigo mais encontrar o meu próprio corpo. Hoje tomei posse temporária do corpo de uma menina de 9 anos (hmmm, deve ser por isso que tenho uma tentação a iXkRevEr IxKizitU) que está digitando isso num computador do McDonald's. Tenho que escrever rápido pois assim que o McLanche feliz começar a fazer efeito o corpo da petiz vai querer expulsar essa alma extra.

Desculpem o abandono do blog. Mas não foram só os meus blogs que deixei ao relento durante essa minha experiência fora-do-corpo, foi quase toda a internet. Meus caros e caras, se deixei de visitar seus magníficos blog para distribuir com generosidade as pérolas foscas do pensamento ratapulgiano, não foi nada pessoal. Para vocês terem uma idéia: eu vejo no contador de atualizações de RSS que já há 361 posts não lidos.

Como meu corpo está perdido por aí, dependo de baixar no corpo de outras pessoas que tenham acesso a internet para poder me comunicar com vocês, checar emails e tudo mais. Outro dia baixei numa senhora gorda (equivocadamente achei que teria mais espaço para duas almas - nada! é bem mais apertado) mas ela estava no meio de um culto pentecostal e acabei sendo chamado de Exu Caveira por um pastor que me batia com uma Bíblia. Dei-lhe um murro na cara e saí da igreja para procurar um internet café ou uma Lan House apenas para descobrir que estava na periferia de Itaquaquecetuba e que as chances eram mais que remotas. Voltei à igreja para ver se o pastor ou alguêm da congregação poderia emprestar um laptop com serviço wireless de conexão via celular mas a turba começou a espancar a mulher. Sai do corpo e deixei a gorda sendo linchada lá embaixo.

É isso. Assim que encontrar meu próprio corpo volto a ler e postar com regularidade. Vamos torcer para que não tenha sido cremado ainda. Beijos e abraços a todos, de acordo com a preferência pessoal.

30.11.04

Calça Curta

Pensei num programa ao vivo de quarta feira que comentaria o Saia Justa em tempo real. Se chamaria Calça Curta.

São 4 homens tomando cerveja e assistindo o futebol básico da quarta-feira e zapeando de vez em quando para o Saia Justa.
São eles:
O Maurício Orth, irmão da Mariza Orth, um puta gênio;
O Alexandre Machado, marido da Fernanda Young;
O marido da Mônica Valdvoguel, esse mártir, whoever he is;
Um tio aposentado da Marina Lima.

Quando uma mulher fala uma bobagem muito grande lá no Saia Justa o seu correspondente masculino no Calça Curta recebe uma vaia e uma saraivada de amendoins, eventualmente toma uns cascudos de todos.
O Alexandre Machado já vai para o programa usando um capacete daqueles de futebol americano.

21.11.04

entardecer opaco de novembro

foi naquele acampamento de mentirinha que você sabe onde que tão bonita brincava de sair do corpo e ver nós dois de formiguinhas crianças lá em baixo na grama rindo muito de bobeira naquele entardecer opaco de novembro você daquela vez foi muito longe mesmo na hora que começou a chover muito forte eu gritava mas você não escutava e ria no temporal rodopiando nas nuvens aspiraladas sem ver o caminho de volta quando a enxurrada levou seu corpo embora na correnteza e eu agarrei chorando na sua alma que chegou tão atrasada

de Eulírico de Oliveira para Maira

19.11.04

Leave death to the professionals.

“In Italy, for 30 years under the Borgias, they had warfare, terror, murder, bloodshed, but they produced Michelangelo, Leonardo da Vinci, and the Renaissance. In Switzerland they had brotherly love, they had 500 years of democracy and peace, and what did that produce? The cuckoo clock.”

Orson Welles em The Third Man (1949)

17.11.04

Notícias de Sampa

Olá, querida,
por aqui tá tudo tranqüilo,
e por aí? Aproveitando bastante a viagem?

Não tenho mais passado fome, viu? Comprei mais quinze caixas de sucrilhos e resolvi o assunto. Banho também não é problema. Aquele que tomei no dia da sua viagem até que está aguentando bem. Tenho dormido otimamente bem no sofá, assim quando eles gritam gol na TV eu não preciso ir correndo para a sala. O que criou um certo problema, já que fiquei muito distante do telefone. Mas a secretária eletrônica tem dado conta bravamente do recado, ou dos recados. Você sabia que ela guarda até noventa e nove recados? Depois disso ela pára de gravar. Mas, tudo bem, a maioria das pessoas ligou mais de uma vez eu já sei em termos gerais o que elas querem. Assim que eu achar minha caderneta de telefones eu retornarei as chamadas.

A Dona Cleide não vai poder vir de novo essa semana. Seria bom que ela viesse, porque o pessoal derrubou cerveja durante o jogo e o piso inteiro tá meio grudento, a não ser perto do banheiro, onde o vazamento da pia acabou, felizmente, limpando sozinho a melequeira. A cozinha ainda dá para entrar. Os jornais absorveram o leite que estourou, mas se transformaram numa pasta endurecida que dificulta abrir a geladeira. Os forninhos é que não estão funcionando muito bem. O microondas, desde que explodiu uma lata de coca-cola dentro, derruba a voltagem do apartamento; e o forno elétrico está com um cheiro de vômito queimado bem desagradável; o fogão eu parei de usar por que parece que ele está vazando gás de algum lugar. Eu liguei o ventilador para empurrar o cheiro de gás pra janela da cozinha. Outra coisa é que eu não sei mais o que fazer direito é com o lixo que fica atravancando a porta da cozinha. Os saquinhos de lixo acabaram e eu estou embrulhando as coisas em jornal, mas não consigo dar um nó direito nas folhas de papel e o pacote sempre fica assim meio torto. A porta da sala já tá difícil passar por causa de uma montanhinha de cartas acumuladas que meio que travam a porta na hora de abrir.

Mas, sem problemas, eu já levei tudo que eu preciso para perto do sofá. E dá para usar o violão como mesinha enquanto eu faço a fisioterapia com o pé nos baldes. O dedão infeccionou de vez e as pomadas não estão mais fazendo efeito, mas descobri que tomando uns dez voltarens ele pára de doer.

No mais, tá tudo jóia.

Aguardando ansiosamente sua volta.
Grande beijo. Saudades.

Olegário

PS - O seu pai ligou da delegacia várias vezes meio desesperado. Dá uma ligadinha pra ele pra ver o que ele quer. Parece que é importante.
PS 2 - O Bezerra Caolho me arranjou outro pitbull !! É lindo de morrer e se chama Lúcifer júnior!
PS 3 - Por falar nisso. Você era muito apegada às suas botas? Aconteceu um troço aqui. Depois eu conto.

16.11.04

Internetiqueta - preceito 47

Evite sempre os ataques Ad Hominem.
Concentre-se nos ataques Ad Matrem.

7.11.04

Roleta Russa (replay)

Rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr – CLICK

– Alguém precisa morrer, Ivan.

Rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr – CLICK

- Alguém sempre precisa morrer, Bóris.

Rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr – CLICK

– Sempre. Desejos antagônicos só devem ser resolvidos pela anulação total do outro, Ivan.

Rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr – CLICK

- Ou pela anulação de si mesmo, Bóris.

Rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr – CLICK

- Sempre na esperança que a não-existência traga o não-desejo, Ivan.

Rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr – CLICK

- Ou que a aleatoriedade do gesto de puxar o gatilho seja o modo definitivo de saciar todos os desejos. Assim como em uma má novela em que o autor perde o rumo da história, alguém termina morto. Alguém sempre precisa morrer, Bóris.

Rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr – CLICK

– Mas tem certeza que você colocou uma bala no tambor deste revólver, Ivan?

– Você está louco, Bóris? Alguém poderia acabar se machucando!

Na manhã seguinte o corpo de Ivan foi encontrado ao lado da arma. Morto a coronhadas.

5.11.04

A Divina Tragédia (canto VIII) – A Mansão de Lord Buttocks

Lord Buttocks era também conhecido como O Autor. Era um escritor tão bom, seu conhecimento da alma humana tão profundo e suas descrições tão vívidas, que os seus personagens realmente criavam vida e saíam por aí. Eles passeavam pela propriedade de Lord Buttocks e jogavam croquet. Alguns até chegavam a se assanhar com a criadagem, mas logo Lord Buttocks, O Autor, ameaçava alterar alguma característica física deles em uma nova edição de seus livros e eles retornavam obedientes ao chá e torradas com geléia de damasco.

Porém, agora, os seus personagens estavam morrendo. Um a um. E também seus investigadores. Ninguém descobrira a razão.

Na entrada da propriedade de Lord Buttocks não havia portões. O caminho até a Mansão era protegido por um asseado jardim em forma de labirinto. Como o de Versailles. Apenas um pouco maior e com plantas carnívoras. Não muitas. O suficiente para desencorajar seus diversos fãs e tias-avós em visitas-surpresa.

Resolvi alugar um taxi-aéreo para passar por cima do labirinto. Taxi-aéreo no Céu são uns anjões com umas fitas de seda resistentes e coloridas que formam uma balança aonde senta o passageiro. Ele me deixaria diretamente no hall de entrada da mansão. O anjo que eu peguei era careca e falava fluentemente o paquistanês e o aramaico. Pena que eu não. Consegui me fazer entender por gestos. É preciso ter muito cuidado. Nosso tradicional gesto de positivo é entendido aqui no Céu como "tem penas de urubu saindo das nádegas peludas da sua irmã caçula". Uma ofensa grave.

Como eu imaginava, a vista aérea revelou que o labirinto não tinha saídas para a parte interna da propriedade. Imagino que aquela velha e pequenina senhora de chapéu florido carregando uma travessa com docinhos ainda perambularia muito tempo por ali. Do alto a propriedade se mostrava ensolarada e magnífica. Daria para assentar por ali umas cinqüenta famílias de sem-terra. No mínimo. O taxi aéreo me deixou ao lado da réplica da Fontana di Trevi, onde se banhava uma réplica da Anita Ekberg, diante da entrada da mansão.

Paguei a curta viagem com sete balas juquinha de morango, uma iguaria que acredito ser muito apreciada por aqui. O anjão careca fez um sinal de positivo para mim e, resmungando, levantou vôo.

– Fola! Não pode entlá!

Fui recebido inamistoamente por Nun Li, mordomo de Lord Buttocks, um mau-humorado chinezinho de 60 centímetros de altura. Não era um chinês baixinho, atarracado, mas uma miniatura perfeitamente proporcional de um chinês típico. A cabeça parecendo um ovinho invertido, chapeuzinho preto, bigodinhos finos, vestes de seda vermelha e andar de gato de porcelana. Tudo em miniatura.

Nun Li e Nun Goj-Tei eram irmãos gêmeos. Ambos nasceram, coincidentemente, na mesma casa, no mesmo dia, na mesma hora, embora de mães diferentes. Nun Li era o mordomo de Lord Buttocks e Nun Goj-Tei o motorista do riquixá de Christie, a gata de estimação de Lord Buttocks.

– Não pode entlá!

O mordomozinho chinês, muito sofisticado, sabia 37 idiomas e dialetos, oito línguas mortas e três agonizantes. E odiava falar português. "Lingua hololosa. Palece um lusso embliagado falado ao contlálio." Assim, fazia questão de trocar sempre que possível o R pelo L. Para ridicularizar o ouvinte. É a tal da sabedoria chinesa, acho.

– Senhor Nun Li, eu venho, com uma puta humildade, oferecer os meus especializados serviços ao seu patrão.

Dei meu cartão ao chinezinho que o olhou como se eu tivesse assoado o nariz nele. No cartão ou no chinês. Tanto faz.

– Michaetch M. Wladisknivlonzky, pediculo?
– Não, não sou pedicuro, sou Nivronsky, detetive particular. Foi um erro de impressão. É difícil achar boas gráficas no Inferno. E quando se encontra, estão sempre sacaneando.
– Infelno, é? Então, seu Nivlonsky, é uma alma etelnamente danada?
– Exatamente. E vim resolver esse pequeno incoveniente dos assassinatos em série.
– Hmmmm…

O pequenino chinezinho levantou uma sobrancelha. Levantou também a extremidade de seu bigode e o dedo mínimo do pé direito. Algumas engrenagens metafóricas mexiam na sua cabecinha de bibelô. Ele sabia que as almas eternamente danadas não correm o risco de renascer. Assim eu não correria o risco de terminar como os outros investigadores desse caso misterioso, reencarnando abruptamente na Terra.

– Pol favol, agualde na ante-sala.

Segui o minúsculo mordomo. A ampla sala era uma réplica do interior do Palácio Ducal de Veneza. Só que feita com bom gosto. Ou seja, completamente diferente.

As paredes e o teto eram totalmente recobertos por pinturas e afrescos que estavam sendo repintados por Frederick Lord Leighton. Nessa versão de outono o pintor estava representando as diversas musas. Do teatro, da música, da pornochanchada, do badmington. A musa Yabusa (a musa dos trocadilhos) cansada de posar como modelo, ressonava sobre um divã turquesa. O Próprio Lord Leighton, aliás, dormia pendurado em um cabide num dos cantos do salão com a palheta ainda pendurada nas mãos.

Acontecia que, curiosamente, todas as musas e todas as mulheres pintadas em qualquer cômodo da casa acabavam sempre se parecendo com a Shirley Maclaine novinha. Uma verdadeira obsessão de Lord Buttocks. Uma paixão que jamais seria correspondida, pois a Shirley Maclaine há muito tempo reencarna sucessivamente no mesmo corpo. Sabe-se, porém, que quando terminar a última reencarnação ela será levada por um disco voador para uma outra galáxia em outra dimensão. É essa dor do amor impossível que faz Lord buttocks escrever. A dor e as ameaças do editor.

Porém eu sentia que devido à série de assassinatos ocorrida naquela casa o ambiente estava pesado. Parece que havia uma tensão no ar. Era possível reparar essa tensão no mármore do chão e também nos móveis de marchetaria tcheca. Os candelabros estavam tensos. A casa estava visivelmente toda tensa. Um cálice de champanhe estalou na cristaleira. Lord Leighton acordou, resmungou algo sobre a escassez do verde cádmio e dormiu novamente. Nun Li retornou ao aposento:

– Lord Buttocks o espela no outlo lecinto.

4.11.04

Se Fôssemos um País Civilizado

Luiz Inácio Lula da Silva acompanharia muito atento, na TV Record, o mapinha do Brasil que iria lentamente se colorindo de vermelho e de azul. Tomaria mais um trago da branquinha. A apuração correria apertadíssima e ele faria as contas em seus nove dedos: com os quatro votos do Piauí e os três de Roraima, ele poderia recuperar o revés da perda dos seis votos do Rio Grande do Norte.

A contagem estancaria em Minas nos 72%. Um problema com as cédulas perfuradas.

Os analistas diriam que nesta eleição Minas Gerais faria o mesmo papelão que o Rio de Janeiro fizera há quatro e há oito anos atrás. Alkmin já estaria preparado para apelar a Aécio Neves para que fizesse a recontagem dos votos de Minas somando os votos vindos do exterior dos emigrantes de Governador Valadares.

Bóris Casoy passaria o Estado de Minas e seus vinte e oito votos no colégio eleitoral para a cor abóbora; indefinido.

Mas Lula saberia – assim como qualquer brasileiro – que existe essa tradição, essa superstição, esse tabu incontestável: quem ganha no Estado da Bahia sempre vence a eleição. Não tem conversa. E, distraído, alisaria no pulso a encardida fitinha do Nosso Senhor do Bonfim, prestes a arrebentar.

30.10.04

A Última Valsa da Economia em Viena

Eu continuo achando tudo muito muito muito lindo.

Pois não é belo e misterioso esse mundo cheio de contadorezinhos, marceneirozinhos, verdureirozinhos, jornaleirozinhos?

Todos eles com seus trabalhinhos e seus interesses pequeninos, mesquinhos, que parecem microscópicos e insignificantes, mas quando em interação uns com os outros produzem uma onda, um fluxo, uma sinergia, uma harmoniosa e fluida dança da economia, lenta e bela como a das galáxias que, no fundo, nada mais é que a justa representação de uma lei genética, ancestral e sagrada de virtuosidade e puro amor.

E aí veio o George Soros besuntado com creolina e comeu todo mundo.

27.10.04

Divina Tragédia (canto VII) - Paineiras Furta-Cor

Paineiras Furta-Cor é um condomínio fechado localizado na parte mais distante do Sétimo Céu. Passa-se por várias guaritas e cancelas para chegar lá. A entrada de Paineiras Furta-Cor era guardada por sete anjos-samurais vestidos de armaduras vermelho-cinábrio e terra-de-siena, ton sur ton. O comandante, um grande anjo de seis asas chamado Sir Jonathan Caldwell McGarther Al-Daif Lelahel Duboys de Almeida Metatron III, protegia o elegante pórtico em estilo mediterrâneo com sua espada de nove gumes.

Metatron é um Serafim, um super anjão porreta. É um transformer gigante que duas vezes por semana pode alterar sua forma para um tiranossauro alado de titânio que solta labaredas pelos olhos e raios lazer pelo rabo. Muito cool! Mas, naquela hora, estava na forma desse anjo enorme com três pares de asas metálicas, um par para voar e dois para cobrir o corpo. Empunhava uma estranha espada que seria a versão celeste do canivete suíço.

Irado, ao ver chegar um gordinho careca portando chinelos, camisa florida e pochete trotando em um jegue com toda pinta de viado, admoestou-nos:

– Aquele que ousar profanar o santuário da sapiência e beleza terá sua alma espúria exterminada do meio de seu povo. O ímpio que trouxer iniqüidade a este santificado reconditório vestir-se-á de maldições como quem põe sobre si uma mortalha ensangüentada. – o gigante Metatron avançou em nossa direção. – Não temeis, por ventura, a espada de nove gumes de Metatron, ó reles criatura? Que impurezas trazeis em vosso coração, ó alma vil e xexelenta?

Solenemente proferi as santas palavras: "Trouxe a muamba do Orson pra galera! U-hu!"

Os anjos-samurais prostraram-se no chão. Metatron fez uma respeitosa reverência e entrei. Todo o condomínio é circundado por altas muralhas caiadas. Uma alameda de, óbvio, paineiras furta-cor conduz a um jardim e um lago central com uma ruína de um templo à Minerva projetada pelo Le Corbusier. Nenhum transporte motorizado é permitido. Apenas riquixás e cabriolés zanzam pelas aléias floridas.

Encontrei toda a clientela de Orson Welles reunida em um Garden Party Brunch nos ensolarados jardins do Palacete de Marlon Brando. A distribuição dos produtos seria bastante rápida. Todo mundo estava lá. Menos o próprio Brando, que mandou uma falsa índia em seu lugar. Ingrid Bergman com uma pena na cabeça.

Grace Kelly, deitada languidamente com seu maiô branco à beira da piscina, ouvia animada as lorotas dos dois Richards Burtons. O ator contava quem ele havia comido e o explorador de quem ele escapara de ser comido. Dorothy Parker com um chapelão amarelo era assediada pelos dois Lawrences. TE travava um discreto duelo com DH para acender o cigarro na longa piteira também amarela de Dorothy. Oscar Wilde voltava de um alegre passeio pelo pomar com o imperador Adriano. Akira Kurosawa tocava um ukalele para Theda Bara dançar. Um mandarim magrinho estava sentado em posição de lótus no trampolim da piscina. Um lagarto azulado sonolento segurava uma sombrinha rendada sobre sua cabeça imperial. Humphrey Bogart jogava xadrez com Lyn Yutang. Sidarta todo arrogante, achando que era o Tao, carregava no colo sua cadelinha Fifi.

Porém um pequeno alvoroço estremecia os convidados como uma lagartixa caída em um decote. Um escândalo. Boatos recentes na Terra diziam que o filho do Chefe Lá de Cima era, na verdade, casado. Tinha filhos no paralelo e tudo. Mandaram chamar o Leonardo da Vinci, suposto autor da fofoca. Leo chegou naquele troço voador que parece um saca-rolhas feito de papelão que todo mundo sempre tem que dar um empurrão pra funcionar direito e sair correndo quando pousa. Ele afirmou não ter nada a ver com essa história. Não tinha nada de códigos na pintura, não. Nem sabia da vida do Filho da Homem. Ele apenas fizera uma propaganda institucional. Só. Sem subliminares, que custam mais caro. O pessoal estava viajando na maionese e pirando no abacate. Mas, afinal, cada um via o que queria em seus quadros, não é mesmo? Obra aberta e coisa e tal. Ele não era dono dos olhos das pessoas. A não ser de um determinado cadáver, mas esse ele tinha a nota fiscal. Não sei se o papo colou. Mas a discussão parecia que iria longe. Mencken e George Sanders o cutucavam, provocativos. Leonardo ria, afagando a barba, e tergiversava.

Ao lado da piscina anunciei minha chegada e a das infernais especiarias.

– Olhaí, olhaí freguesia, é a muamba do Orson Welles! Venham experimentar essa dilícia!

O grupo em torno de Leonardo da Vinci dispersou e começou a rodear o jegue.

Grace Kelly foi a primeira a se levantar para pegar a sua cocaína para o real narizinho platinado. Levantou o rabo do jegue e procurou sua encomenda. E, em seguida, bateu uma carreira num espelho que lhe estendia Cleópatra. Apesar de achar a cena hilariamente disgusting, os outros logo a seguiram. Cada um dos convivas depois de vencer o nojo pegava dentro do jegue o seu pacote. O jegue gay zurrava de contentamento.

O vibrador com luzes e musiquinha para a Mata Hari. Uma touxinha de ópio e um cachimbo de madrepérola para Lord Byron. Os charutos cubanos para o Churchill. A grande caixa de viagra para o Borges. Absinto 70º para o Fritz Lang. Os pastéis de camarão com catupiri, embora tenham chegado quentinhos, acabaram sendo irremediavelmente esmagados. Ficarei devendo para a simpática czarina Catarina I. Dei para ela o restinho da minha pamonha e ela lambeu os lindos beicinhos.

Depois de compartilhar o novo cachimbo de Lord Byron vários convivas começaram a mostrar outros interesses pela minha montaria. Quando eu já deixava a Garden Party pulavam na piscina, ao som de palmas e gritinhos animados, Nabucodonosor, Marcello Mastroianni e o jegue. Peter Sellers agitava as maracas. A rainha Vitória começava a tirar a roupa.

Já era a hora de fazer minha visitinha à mansão de Lord Buttocks.

26.10.04

Apêndice comercial (canto VIb)

Muitos me perguntam sobre o Primeiro Céu e a localização de seus principais pontos turísticos. Ok, ok, ninguém perguntou, mas eu vou falar mesmo assim.

O Primeiro Céu é reservado aos principiantes e está dividido em duas alas.

Na parte meridional se localiza a biblioteca e a videoteca. Não são tão completas quanto as do Inferno, mas pelo menos você consegue encontrar o que está procurando. As silenciosas salas de estudo são ideais para aqueles que estão estudando duro para não fazer feio no Juízo Final.

Na metade setentrional está a Academia de Santos. Para esta ala vêm aqueles que procuram nas próximas encarnações buscar o caminho da santificação e beatitude sem se esquecer do corpinho. É conhecida como Academia Forma & Conteúdo. Reproduzo o folheto:

Venha você também cuidar do seu Corpo e Alma! Na Academia Forma & Conteúdo temos:

– Aulas de Spin com Devirxes Rodopiantes.

– Claustros individuais de Step e Meditação.

– Dominicanos instrutores de autoflagelação.* Opção por equipamento Moderno ou Classic.

– Beatas nutricionistas especializadas em receitar hóstias anabolizadas que garantem alucinações místicas.

– Cursos de estigmatas e alongamento com vídeos de artistas famosos em conjunto com as santas mais badaladas do momento.

– Contemplativos passeios semestrais ao Deserto do Sinai. Menu a base de gafanhotos, mel e suco de alfafa. Traje passeio leve.

– Palestras semanais feitas por notórios especialistas abordando temas importantes como:
- Visões Místicas: entrei em contato com Deus ou exagerei no jejum?
- Êxtase Espiritual e Orgasmo. Uma abordagem fenomenológica.
- Glossolalia e Pentecostalismo, como diferenciá-los?
- Como atrair animais sem esconder restos de alimentos na túnica.


* Quando passo por perto eu sempre escuto algo como "Sem moleza, gente! Agora vamos malhar esses tríceps!"

25.10.04

Arte


Arte é uma Resposta a procura de uma Pergunta.
Ou alguma coisa parecida. Lá sei eu.
Na verdade isso é só um teste do flickr.
Ignorem.
Ou não.